Em defesa da PSICANÁLISE:
Os seguidores minimamente atentos da história da psicanálise ter-se-ão apercebido da presença de uma clivagem precocemente instalada no seio do seu desenvolvimento. Simplificando a questão, esta clivagem nasceu da crítica ao solipsismo do sujeito-pulsão freudiano, em detrimento do qual tentou afirmar-se a hegemonia do sujeito-relação, como se declarada incompatibilidade existisse entre pulsão e relação. Escolhendo sempre a psicopatologia como principal campo de debate, para não dizer contenda, esta clivagem veio opor as teorias do défice relacional, às teorias do conflito pulsional. Muito em síntese, as teorias do défice relacional vêm proclamar que a psicopatologia do sujeito é uma consequência direta das perturbações de carácter dos objetos do self, em detrimento do enfoque intrapsíquico da psicanálise freudiana, cuja natureza solipsista responsabilizaria injustamente o sujeito pelo seu próprio devaneio. Esta clivagem foi historicamente fundada no seio da escola inglesa das relações de objeto. Ronald Fairbairn deu o primeiro passo, não só tentando afirmar, através de uma complexa arquitetura teórica, o lugar da psicopatologia do sujeito como consequência direta e unicamente derivada das perturbações de carácter dos seus objetos de amor, como também procurando atingir os alicerces da metapsicologia freudiana, atacando sem piedade a hegemonia do princípio do prazer: a libido precoce não procura o prazer, mas sim o objeto dos interesses globais do self (uma libido cheia de interesses globais do self, logo desde o nascimento, portanto). Donald Winnicott, por seu turno, a retoque cultural do ambiente sustentador, aplicou à metapsicologia freudiana o golpe de grassa da mãe suficientemente boa. Nasceu também daqui, à força do impto desenvolvimentista soprado por Margaret Mahler, o vento em popa nas velas da escola americana da psicologia do self, uma psicologia psicanalítica da relação, radicalmente inversa ao posicionamento pulsional original, que encontrou em Heinz Kouth o seu principal mentor.
Mas perguntemos então: será que alguma vez a teoria pulsional freudiana foi bem interpretada-compreendida, ao considerar-se que negligencia a dimensão psico-relacional, incompatibilizando-se até com ela? Tentemos pois caminhar para uma resposta segura a esta questão. Sendo dos objetos do self, ou seja, dos objetos de amor do sujeito, que as teorias do défice relacional tanto falam, será precisamente o amor o caminho a percorrer. Até porque, efetivamente, a capacidade de amar de modo suficientemente descontamindo dos efeitos do ódio, é a condição estrutural essencialmente salubre do sujeito-relação, que tão frequentemente se encontra prejudicada nos pacientes que a nós recorrem. Todos sabemos como tantas vezes os pacientes entram numa análise ou numa psicoterapia psicanalítica com uma precária, ou mesmo nula, capacidade de amar (sempre irreconhecida, pelo menos inicialmente), e saem do processo em questão, quando tudo corre bem, com a mesma capacidade restaurada.
Mas como se aprende então a amar? Sendo este um aspeto de consenso geral em psicanálise, só se aprende a amar sentindo-se incondicionalmente amado pelos objetos de amor primários. Efetivamente, só muito raramente podemos supor que a vida por si mesma venha a reparar um défice relacional e/ou um conflito pulsionalmente enraizado, instalados a este nível. E se só se aprende a amar, sentindo-se incondicionalmente amado, quererá isso dizer que um paciente restaura a sua capacidade de amar, porque finalmente se sentiu incondicionalmente amado, como nunca antes, desta feita pelo analista? Por motivos sobremaneira óbvios, desnecessários serão os esforços para fundamentar a refutação desta hipótese.
Portanto, permanece uma questão: como é então possível que o paciente restaure a sua capacidade de amar, sem cairmos na ridícula posição de termos que o amar incondicionalmente, se só se aprende a amar sentindo-se incondicionalmente amado? Chamo agora à atenção para a resposta. A resposta já Freud nos deu à muito, mas poucos parecem tê-la efetivamente compreendido. É possível porque a pulsão está lá. Está é a resposta. É por isso que é possível. O que nós clínicos fazemos, ou vamos fazendo ao sabor do processo, a par da permanente significação e/ou resignificação do vivido afetivo-emocional, é ajudar a desbloquear a capacidade de amar do sujeito, porque a pulsão está lá: a pulsão de vida, cujo representante é a libido sexual, libido esta que é, também, o termo técnico do amor. Efetivamente o que nós permitimos ao sujeito é atenuar a dor e apaziguar o sofrimento. E atenuando a dor e apaziguando o sofrimento – no enquadramento técnico dos movimentos relacionais de transferência e contratransferência –, reduzem-se os efeitos do ódio, que sempre por lá andam em maior ou menor grau, em grande parte dissimulados quer pela culpa, quer pelo medo da perda. E assim a libido ganha espaço e expressão – na constância do investimento numa relação neutra e securizante (relação clínica) – sobre os efeitos destrutivos da agressividade instintiva, a pulsão de morte, neutralizando cada vez mais o ódio e liberando cada vez mais o amor. É esta a nossa arte (saber fazer), é assim que nós propiciamos ao sujeito uma relação através da qual a libido desbloqueada ganha expressão e neutraliza os efeitos destrutivos da agressividade instintiva, fundindo-se com ela (fusão pulsional), colocando-a ao serviço da função sexual – como diria paradigmaticamente Freud – e como tal ao serviço do amor e da atividade criatividade em geral. Esta é agora uma libido forte e revigorada pela agressividade vital, apta a todo o género de investimento e sublimação. É isto que nós fazemos através da relação clínica, quer saibamos, quer não.
Por fim cabe lembrar que Freud foi o único que até agora nos permitiu uma psicologia capaz de estabelecer a ponte entre o psíquico e o biológico, entre os representantes psíquicos da pulsão (base da atividade mental), e a sua fonte somática (biológica), sem termos que cair na insondabilidade total dos genes, sempre constatada quando se trata de explicar a orgânica da psicopatologia, que regra geral nos tem vindo a ser pseudocientificamente vendida como doença mental (mais precisamente, como doença cerebral de natureza genética).
Regressando à especificidade da temática proposta, é também este legado freudiano que Melanie Klein procurou recolocar numa posição supostamente mais relacional, a meu ver sem os grandes avanços que por muitos são reclamados – exceptuando, obviamente, os contributos em torno da identificação projetiva, brilhantemente optimizados por Wilfred Bion –, porque a teoria pulsional de Freud, eis o irónico da situação, não pode ser coerentemente articulada sem ter em conta a relação, coisa que, obviamente, ele sempre soube. Basta lembrar que, como saberão, é apenas no contexto da relação, tendo em conta a qualidade da mesma, que a libido pode investir o objeto e cumprir assim a sua mais vital função: neutralizar a pulsão de morte – Fusão pulsional. A primazia do pulsional, tal como originalmente postulada, articula-se coerentemente com a diversidade dos quadros relacionais para os quais necessariamente converge, constituído-se nesta base um enquadramento compreensivo mais amplo, sólido e profundo que outras alternativas (ou desperdícios). jcv.JUL.14
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