quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O CONTO DO CHINÊS


ANTES QUE SEJA TARDE, VAMOS TENTAR CUMPRIR A PALAVRA DADA, JUNTANDO OS TEXTOS PEDIDOS PELO AVÔ JOAQUIM:

O CONTO DO “CHINÊS”

Nesta minha frenética “ideia” de compulsivo viajante, fico sem saber se já, ou não visitei a China! Acho que não. Melhor recordado: não!
Mas do que quero discorrer é indiferente ter lá ido ou não, quer no tempo dos Ming, quer nos de Mao, quer mesmo nos de Deng Xiau Ping.
É cá, na china urbana de Portugal, que a ideia surge, se desenvolve e se instala.
O meu amigo Rosalvo, velho companheiro de tantas viagens mentais, muito antes de haver Internet, com quem me encontrei há dias e lhe dei conta desta chinesa ideia, logo atirou, como sempre sucede:
- Tu e as tuas ideias malucas! Mas conta lá, se tiveres tempo e valer a pena!
Então é assim – como um dos mais pândegos patrões, tartamudo crónico, inicia as conversas sobre tudo o que não sabe!
Então é assim, repito: recordas, por certo, que no nosso tempo de adolescentes, lá pela Lisboa doutras eras, ou seja, dos anos cinquenta, de chineses não se falava!
- Porque seria? Interrogava-se o Rosalvo.
O que havia, não muitos, era uns baixinhos, de cor escura, não castanha como os de Angola e Moçambique, de cabelo preto e liso, em vez de carapinha, a maioria deles já pelos cinquenta ou mais de idade, que transportavam à tiracol ( sempre gostaste desta, hein !) uma montra ambulante de gravatas, esticadinhas e dependuradas ao longo de um rolo de madeira bem polido, que uma correia em cabedal segurava, passando por cima do ombro esquerdo, cruzava a parte das costas e reaparecia abaixo do sovaco direito e se fixava na outra extremidade do pau.
Sempre em passo lento, não apregoavam as gravatas em altos berros como as varinas apregoavam o “Olhó carapau fresquinho! Olhá pescadinha marmota! Olhó cachucho!”, ou por uma questão de temperamento tímido ou porque o produto, sendo banalizado na época, sempre emblemava uma certa solenidade.
- Ai era?! Exclamava o Rosalvo. Mas tu usavas gravata! Era para ficares com ar solene?
Fazia parte da minha indumentária da minha profissão, aviador de balcão! Tu, por exemplo, não usavas gravata durante o trabalho, pois se usasses, alombar com o balde de argamassa ou só cimento, do rés-do-chão onde a caixa de amassar estava, até qo quarto ou quinto…!
- Não fazia duas viagens, precisava o Rosalvo; ficava logo que nem um trapo!
Recordas-te ou não dos vendedores de gravatas? Deviam ser indianos, mas vendiam gravatas da China!
Depois tu casaste com a velhinha rica!...
- Ela é que casou comigo! Porra!
Está bem, a velhinha casou contigo, fizeste o tal “negócio da China” naquela época…
- É verdade. Da China só se falava quando algum tipo fazia uma ou outra negociata pouco ortodoxa!
… e depois desapareceste, traíste o nosso plano de viagens imaginário e correste mundo, como me ia chegando aos ouvidos por outros dos nossos parceiros de adolescentes velhacarias.
- Gozei tanto, até que…
Caga nisso! Divertiste-te à grande e à francesa e fizeste tu muito bem! Se a velhinha tivesse casado contigo agora o que fazias?
- O mais certo era não ter casado ou então voltava a correr mundo e rebentar com a herança como fiz!
Vês, o que lá vai, lá vai. Estás teso como antes, mas já gozaste o teu naco!
- Até à China fui!...diz o Rosalvo num tom de voz de ausente entusiasmo.
- Continua lá com a tal ideia; já me estou a ir abaixo das canetas! Tanto dinheiro estragado…! P’ra nada!
Ah, pois, vamos lá, antes que te ponhas a carpir saudades e a cantar o fadinho! Recordas-te dele?
- Só do refrão ou dos versos mais conhecidos:
- “Saudade, vai-te embora/Do meu peito tão cansado/Leva para bem longe/Este meu fado…Ficou escrita no vento…?...no vento…como é?
Não ligues, não está mal! A estragação da fortuna não te levou algumas boas recordações, isso é que importa.
Dizia eu que, alguns anos mais tarde, já muitos mais passados sobre o ano em que Pearl S. Buck recebeu o Nobel de Literatura e sobre o nosso encontro e convívio lá pelos espaços meio loucos de Santa Bárbara e vizinhança, começaram a aparecer os ainda hoje seleccionados e apreciados restaurantes chineses.
- Não mudaram nada, pois não? Nem as pizarias e os hambúrgueres fizeram esquecer o arroz xau-xau e os rebentos de bambu!
É verdade! Mas a geração hoje adolescente está a alterar os hábitos gastronómicos, a empantorrar-se de pizas e hamburgers, a ficarem potes de banha, mas a destronarem o requinte cenográfico dos coloridos restaurantes chineses.
- Até os rambos de xuto, que mataram os cowboys, estão agora a ser sacrificados pelas jogadas dos jogos do profeta do circuito integrado, o Bill Gates!
É verdade! Quem imaginaria tal coisa! Foram-se os flipers, fartos de tanto safanão e pontapé nas pernas das mesas e agora ficam em casa, sentados no sofá a brilharem de tanta aventura!
- Mas ele, o Bill, deixou-se desses negócios, não deixou?
Não é bem assim. Virou-se para outros jogos e jogadas; dizem alguns, o que eu duvido, que para se penitenciar da orgia que provocou pelo mundo fora e de cujas consequências futuras e algumas já presentes nem os seus computadores lhe davam respostas fiáveis de estar a salvo da hecatombe!
- Até o Papa, aquele sonsinho, inclui e coloca o esquema Bill ao lado da droga, do álcool e do aborto como tentações a evitar!
Mas deixemos lá isso! O “míssil” já está no ar e não está garantido onde vai aterrar.
Vamos ao que interessa da ideia.
Desde há uns anos, mais ou menos desde que o Mao “da fita”, tão glorificado por alguns dos nossos ateados “revolucionários” e agora convictos sociais-democratas por terem descoberto que o Povo não queria o poder e que ficassem eles com ele, dizia eu que desde que o Mao saiu de cena e os novos maoistas arquivaram o livro vermelho e a revolução cultural, aproveitando a disciplina férrea que o Mao elevou à categoria de doutrina, desataram a praticar uma economia alucinante, explorando impiedosamente milhões, muitos milhões de amarelos em nome de uma nova doutrina: a economia liberal socialista e que é tão velha como uma das mais velhas profissões do mundo: a prostituição!
É do caraças! E o Guy Mollet, lá na França que já era, da Liberdade, Fraternidade e outras coisas, a tentar convencer o pagode de que não há democracia sem socialismo, nem socialismo sem democracia, tentando em vão resistir ao desgaste que os demagogos de todos os tempos sempre usaram e que nos quiseram vender a “Social Democracia”!
Voltemos ao tema proposto:
Os novos maoistas, inebriados pelos resultados do capitalismo selvagem a que alguns dos responsáveis pela sua aplicação agora apelidam de economia de casino e das off shore, praticado pelos Stats e pelo mundo espalhado como solução para todos os males, e se males houvesse nada melhor que uma guerra ou um cento delas, vão-se instalando sorrateiramente, não com investimentos de vulto na área da produção, optando pela mais prática, menos dispendiosa e de lucros garantidos: o comércio de toda a gama de produtos, muito poucos que eles fabricam e a maioria deles não, vendendo a preços que dificilmente têm competição!
Sem qualquer exigência de qualidade, quer por parte dos “maoistas”, quer dos governos e agentes de fiscalização dos países onde se instalam! Pelo contrário, até lhes facilitam tudo, terrenos, impostos, e até taxas, porque as Câmaras também querem o seu quinhão no negócio e abrem-se todas para as grandes superfícies, ajudando à extinção uma boa parte do comércio tradicional!
Todos sabem que esta prática lhes serve de almofada amortecedora do choque de guerrilha que não deixaria de estoirar quando os tolos como eu e outros consumidores compulsivos, que só estão felizes quando estão ao balcão para pagar uma inutilidade que muitas vezes não chega ao destino.
Sempre a dinheiro, que chinês não aceita cheque nem cartão! Caletão, não, dizem logo naquele misto de línguas que até dá gosto ouvir!
E, já agora, vamos lá ao epílogo da tal e não tarda!
Situando-a no tempo e no espaço em que germinou.
Por razões que não irei repetir, afinal tu conhece-las suficientemente bem, fui parar a um tribunal judicial e a exercer na área do Ministério Público.
Entre a variedade de delitos na comarca que tinham de ser averiguados/investigados e outros ocorridos noutras comarcas onde os processos corriam seus termos, tinham também que ser tratados. Não por uma questão de simpatia ou solidariedade, mas por dever institucional regulamentado.
Entre elas, sobretudo vindas dos Tribunais de Lisboa, apareciam, não raras vezes, cartas precatórias para serem ouvidos em declaração, na qualidade de ofendidos, um ou outro residente que na capital tinha sido enganado (burlado) por um ou dois indivíduos, cuja descrição era pantanosa e identificação desconhecida, que lhe tinham ficado com a carteira e todo o dinheiro que tinham levado para a capital ou que tinham acabado de receber no serviço nacional de pensões ou na companhia de seguros.
A técnica dos especialistas nesta forma – ilícita – de se apropriarem do que a outro pertence por direito (digo ilícita porque há outras, praticadas por outro tipo de gente, em que de ilícita passa a lícita por terem a protecção o tão estimado e louvado estado de direito, que não de justiça) não tem grandes pormenores técnicos e pouco evoluiu desde há décadas, bastando explorar, usando de alguma psicologia aprendida na universidade da vida, o lado avaro que todos temos e prometer-lhe, em troca de nada, uma pequena fortuna a que só os bons de coração e confiantes em excesso, têm direito; precisam só de confiar, momentaneamente, e irem levantar o valor da cautela premiada ou do cheque bem nutrido, mas que o emissário não podia levantar por ter esquecido a identificação e ter necessidade absoluta do dinheiro por ter voo marcado para poucas horas depois.
E num abrir e fechar de olhos o incauto avarento fica sem o que pensava estar garantido, voluntariamente entregando ao desconhecido carteira e dinheiro, por vezes anéis e cordão e só reconhece que foi burlado e sua avareza castigada quando ao balcão lhe dizem que a cautela não tem qualquer prémio ou que o cheque não pode ser pago por falta de provisão!
A sua afronta é tal que ao queixar-se não é capaz de dizer, porque deixava de ser esperto, o que de facto se passou, preferindo (ai esta vaidade!) dizer que o tinham atordoado com um lenço embebido em alguma droga ou nalguns casos optarem por escolher a hipnose como arma de utilização para lhe ficarem com tudo!
- E foi para me falares dos pensamentos e artes dos outros que tu me tiraste do meu sossego?! Não era para me falares do chinês comerciante?
Certo, tens toda a razão, vamos a ela.
Como todos ou quase todos fazem eu também costumo ir espreitar o bric-a-brac (será assim que se escreve?) ou parafernália das atulhadas prateleiras das lojas exploradas pelos chineses.
Não sei de onde pode aparecer tanta e tão variada coisa e quando tento perceber nunca chego a qualquer conclusão.
Tu sabes também o que é aquele mundo que parece de fantasia, pois me acompanhaste há tempos quando fui comprar um comando para televisor por o outro ter dado o “berro”, devido aos muitos anos de uso e maus tratos.

- É verdade, que cena! Tiveste que ir lá três vezes e depois de tanta tloca acabaste por ficar com o último, mas enfiado na gaveta das inutilidades!
Foi isso mesmo, ainda bem que te lembras. É que o mesmo sucedeu com extensões para tomadas eléctricas, com lâmpadas de poupança e em dois dias seguidos, na semana passada, foi com uma bicha para chuveiro que só durou dois duches e um abre-latas de conserva que nunca abriu lata alguma!
Ia reclamar, como fiz anteriormente com os outros artigos, mas antes de entrar na loja lembrei-me dos meus tempos de tribunal e temi que o chinês comerciante me dissesse:
- Você quelia me enganal, complando pul doix eulos uma coisa que cuxta cinco? Isso é como conto de vigálio à pultuguesa!
E não entrei. Voltei para casa e lá foi para a tal gaveta da vergonha o abre-latas que latas se recusa abrir a fazer companhia ao comando que não comanda, às lâmpadas que luz não dão e às tomadas que se recusam a tomar seja o que for.
A bicha do chuveiro, por raiva de duche a meio, fazendo lembrar o duche tentado na fazenda kibaba, frente à Pedra Verde, em Setembro de 1961, foi directamente para o lixo!
Mas fiquem tranquilos, teimoso que sou, de vez em quando ao chinês vou!
E acabou, com uma abraço ao Rosalvo, que não será fácil enganar outra vez!

Autor: Reis Caçote
2002/2017                                     

          O LARGO DE SANTA BARBARA, LISBOA, ONDE TUDO SE FOI CONSTRUINDO




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