ANTES QUE SEJA TARDE, VAMOS TENTAR CUMPRIR A PALAVRA DADA, JUNTANDO OS TEXTOS PEDIDOS PELO AVÔ JOAQUIM:
O CONTO DO “CHINÊS”
Nesta minha
frenética “ideia” de compulsivo viajante, fico sem saber se já, ou não visitei
a China! Acho que não. Melhor recordado: não!
Mas do que
quero discorrer é indiferente ter lá ido ou não, quer no tempo dos Ming, quer
nos de Mao, quer mesmo nos de Deng Xiau Ping.
É cá, na
china urbana de Portugal, que a ideia surge, se desenvolve e se instala.
O meu amigo
Rosalvo, velho companheiro de tantas viagens mentais, muito antes de haver
Internet, com quem me encontrei há dias e lhe dei conta desta chinesa ideia,
logo atirou, como sempre sucede:
- Tu e as
tuas ideias malucas! Mas conta lá, se tiveres tempo e valer a pena!
Então é assim
– como um dos mais pândegos patrões, tartamudo crónico, inicia as conversas
sobre tudo o que não sabe!
Então é
assim, repito: recordas, por certo, que no nosso tempo de adolescentes, lá pela
Lisboa doutras eras, ou seja, dos anos cinquenta, de chineses não se falava!
- Porque
seria? Interrogava-se o Rosalvo.
O que havia,
não muitos, era uns baixinhos, de cor escura, não castanha como os de Angola e
Moçambique, de cabelo preto e liso, em vez de carapinha, a maioria deles já
pelos cinquenta ou mais de idade, que transportavam à tiracol ( sempre gostaste
desta, hein !) uma montra ambulante de gravatas, esticadinhas e dependuradas ao
longo de um rolo de madeira bem polido, que uma correia em cabedal segurava,
passando por cima do ombro esquerdo, cruzava a parte das costas e reaparecia
abaixo do sovaco direito e se fixava na outra extremidade do pau.
Sempre
em passo lento, não apregoavam as gravatas em altos berros como as varinas
apregoavam o “Olhó carapau fresquinho! Olhá pescadinha marmota! Olhó
cachucho!”, ou por uma questão de temperamento tímido ou porque o produto,
sendo banalizado na época, sempre emblemava uma certa solenidade.
-
Ai era?! Exclamava o Rosalvo. Mas tu usavas gravata! Era para ficares com ar
solene?
Fazia
parte da minha indumentária da minha profissão, aviador de balcão! Tu, por
exemplo, não usavas gravata durante o trabalho, pois se usasses, alombar com o
balde de argamassa ou só cimento, do rés-do-chão onde a caixa de amassar
estava, até qo quarto ou quinto…!
-
Não fazia duas viagens, precisava o Rosalvo; ficava logo que nem um trapo!
Recordas-te
ou não dos vendedores de gravatas? Deviam ser indianos, mas vendiam gravatas da
China!
Depois
tu casaste com a velhinha rica!...
-
Ela é que casou comigo! Porra!
Está
bem, a velhinha casou contigo, fizeste o tal “negócio da China” naquela época…
-
É verdade. Da China só se falava quando algum tipo fazia uma ou outra negociata
pouco ortodoxa!
…
e depois desapareceste, traíste o nosso plano de viagens imaginário e correste
mundo, como me ia chegando aos ouvidos por outros dos nossos parceiros de
adolescentes velhacarias.
-
Gozei tanto, até que…
Caga
nisso! Divertiste-te à grande e à francesa e fizeste tu muito bem! Se a
velhinha tivesse casado contigo agora o que fazias?
-
O mais certo era não ter casado ou então voltava a correr mundo e rebentar com
a herança como fiz!
Vês,
o que lá vai, lá vai. Estás teso como antes, mas já gozaste o teu naco!
-
Até à China fui!...diz o Rosalvo num tom de voz de ausente entusiasmo.
-
Continua lá com a tal ideia; já me estou a ir abaixo das canetas! Tanto
dinheiro estragado…! P’ra nada!
Ah,
pois, vamos lá, antes que te ponhas a carpir saudades e a cantar o fadinho!
Recordas-te dele?
-
Só do refrão ou dos versos mais conhecidos:
-
“Saudade, vai-te embora/Do meu peito tão cansado/Leva para bem longe/Este meu
fado…Ficou escrita no vento…?...no vento…como é?
Não
ligues, não está mal! A estragação da fortuna não te levou algumas boas
recordações, isso é que importa.
Dizia
eu que, alguns anos mais tarde, já muitos mais passados sobre o ano em que
Pearl S. Buck recebeu o Nobel de Literatura e sobre o nosso encontro e convívio
lá pelos espaços meio loucos de Santa Bárbara e vizinhança, começaram a
aparecer os ainda hoje seleccionados e apreciados restaurantes chineses.
-
Não mudaram nada, pois não? Nem as pizarias e os hambúrgueres fizeram esquecer
o arroz xau-xau e os rebentos de bambu!
É
verdade! Mas a geração hoje adolescente está a alterar os hábitos
gastronómicos, a empantorrar-se de pizas e hamburgers, a ficarem potes de
banha, mas a destronarem o requinte cenográfico dos coloridos restaurantes
chineses.
-
Até os rambos de xuto, que mataram os cowboys, estão agora a ser sacrificados
pelas jogadas dos jogos do profeta do circuito integrado, o Bill Gates!
É
verdade! Quem imaginaria tal coisa! Foram-se os flipers, fartos de tanto
safanão e pontapé nas pernas das mesas e agora ficam em casa, sentados no sofá
a brilharem de tanta aventura!
-
Mas ele, o Bill, deixou-se desses negócios, não deixou?
Não
é bem assim. Virou-se para outros jogos e jogadas; dizem alguns, o que eu
duvido, que para se penitenciar da orgia que provocou pelo mundo fora e de
cujas consequências futuras e algumas já presentes nem os seus computadores lhe
davam respostas fiáveis de estar a salvo da hecatombe!
-
Até o Papa, aquele sonsinho, inclui e coloca o esquema Bill ao lado da droga,
do álcool e do aborto como tentações a evitar!
Mas
deixemos lá isso! O “míssil” já está no ar e não está garantido onde vai
aterrar.
Vamos
ao que interessa da ideia.
Desde
há uns anos, mais ou menos desde que o Mao “da fita”, tão glorificado por
alguns dos nossos ateados “revolucionários” e agora convictos
sociais-democratas por terem descoberto que o Povo não queria o poder e que
ficassem eles com ele, dizia eu que desde que o Mao saiu de cena e os novos
maoistas arquivaram o livro vermelho e a revolução cultural, aproveitando a disciplina
férrea que o Mao elevou à categoria de doutrina, desataram a praticar uma
economia alucinante, explorando impiedosamente milhões, muitos milhões de
amarelos em nome de uma nova doutrina: a economia liberal socialista e que é
tão velha como uma das mais velhas profissões do mundo: a prostituição!
É
do caraças! E o Guy Mollet, lá na França que já era, da Liberdade, Fraternidade
e outras coisas, a tentar convencer o pagode de que não há democracia sem
socialismo, nem socialismo sem democracia, tentando em vão resistir ao desgaste
que os demagogos de todos os tempos sempre usaram e que nos quiseram vender a
“Social Democracia”!
Voltemos
ao tema proposto:
Os
novos maoistas, inebriados pelos resultados do capitalismo selvagem a que
alguns dos responsáveis pela sua aplicação agora apelidam de economia de casino
e das off shore, praticado pelos Stats e pelo mundo espalhado como solução para
todos os males, e se males houvesse nada melhor que uma guerra ou um cento
delas, vão-se instalando sorrateiramente, não com investimentos de vulto na
área da produção, optando pela mais prática, menos dispendiosa e de lucros
garantidos: o comércio de toda a gama de produtos, muito poucos que eles
fabricam e a maioria deles não, vendendo a preços que dificilmente têm competição!
Sem
qualquer exigência de qualidade, quer por parte dos “maoistas”, quer dos
governos e agentes de fiscalização dos países onde se instalam! Pelo contrário,
até lhes facilitam tudo, terrenos, impostos, e até taxas, porque as Câmaras
também querem o seu quinhão no negócio e abrem-se todas para as grandes
superfícies, ajudando à extinção uma boa parte do comércio tradicional!
Todos
sabem que esta prática lhes serve de almofada amortecedora do choque de
guerrilha que não deixaria de estoirar quando os tolos como eu e outros
consumidores compulsivos, que só estão felizes quando estão ao balcão para
pagar uma inutilidade que muitas vezes não chega ao destino.
Sempre
a dinheiro, que chinês não aceita cheque nem cartão! Caletão, não, dizem logo
naquele misto de línguas que até dá gosto ouvir!
E,
já agora, vamos lá ao epílogo da tal e não tarda!
Situando-a
no tempo e no espaço em que germinou.
Por
razões que não irei repetir, afinal tu conhece-las suficientemente bem, fui
parar a um tribunal judicial e a exercer na área do Ministério Público.
Entre
a variedade de delitos na comarca que tinham de ser averiguados/investigados e
outros ocorridos noutras comarcas onde os processos corriam seus termos, tinham
também que ser tratados. Não por uma questão de simpatia ou solidariedade, mas
por dever institucional regulamentado.
Entre
elas, sobretudo vindas dos Tribunais de Lisboa, apareciam, não raras vezes,
cartas precatórias para serem ouvidos em declaração, na qualidade de ofendidos,
um ou outro residente que na capital tinha sido enganado (burlado) por um ou
dois indivíduos, cuja descrição era pantanosa e identificação desconhecida, que
lhe tinham ficado com a carteira e todo o dinheiro que tinham levado para a
capital ou que tinham acabado de receber no serviço nacional de pensões ou na
companhia de seguros.
A
técnica dos especialistas nesta forma – ilícita – de se apropriarem do que a
outro pertence por direito (digo ilícita porque há outras, praticadas por outro
tipo de gente, em que de ilícita passa a lícita por terem a protecção o tão
estimado e louvado estado de direito, que não de justiça) não tem grandes
pormenores técnicos e pouco evoluiu desde há décadas, bastando explorar, usando
de alguma psicologia aprendida na universidade da vida, o lado avaro que todos
temos e prometer-lhe, em troca de nada, uma pequena fortuna a que só os bons de
coração e confiantes em excesso, têm direito; precisam só de confiar,
momentaneamente, e irem levantar o valor da cautela premiada ou do cheque bem
nutrido, mas que o emissário não podia levantar por ter esquecido a
identificação e ter necessidade absoluta do dinheiro por ter voo marcado para
poucas horas depois.
E
num abrir e fechar de olhos o incauto avarento fica sem o que pensava estar
garantido, voluntariamente entregando ao desconhecido carteira e dinheiro, por
vezes anéis e cordão e só reconhece que foi burlado e sua avareza castigada
quando ao balcão lhe dizem que a cautela não tem qualquer prémio ou que o
cheque não pode ser pago por falta de provisão!
A
sua afronta é tal que ao queixar-se não é capaz de dizer, porque deixava de ser
esperto, o que de facto se passou, preferindo (ai esta vaidade!) dizer que o
tinham atordoado com um lenço embebido em alguma droga ou nalguns casos optarem
por escolher a hipnose como arma de utilização para lhe ficarem com tudo!
-
E foi para me falares dos pensamentos e artes dos outros que tu me tiraste do
meu sossego?! Não era para me falares do chinês comerciante?
Certo,
tens toda a razão, vamos a ela.
Como
todos ou quase todos fazem eu também costumo ir espreitar o bric-a-brac (será
assim que se escreve?) ou parafernália das atulhadas prateleiras das lojas
exploradas pelos chineses.
Não
sei de onde pode aparecer tanta e tão variada coisa e quando tento perceber
nunca chego a qualquer conclusão.
Tu
sabes também o que é aquele mundo que parece de fantasia, pois me acompanhaste
há tempos quando fui comprar um comando para televisor por o outro ter dado o
“berro”, devido aos muitos anos de uso e maus tratos.
-
É verdade, que cena! Tiveste que ir lá três vezes e depois de tanta tloca
acabaste por ficar com o último, mas enfiado na gaveta das inutilidades!
Foi
isso mesmo, ainda bem que te lembras. É que o mesmo sucedeu com extensões para
tomadas eléctricas, com lâmpadas de poupança e em dois dias seguidos, na semana
passada, foi com uma bicha para chuveiro que só durou dois duches e um
abre-latas de conserva que nunca abriu lata alguma!
Ia
reclamar, como fiz anteriormente com os outros artigos, mas antes de entrar na
loja lembrei-me dos meus tempos de tribunal e temi que o chinês comerciante me
dissesse:
-
Você quelia me enganal, complando pul doix eulos uma coisa que cuxta cinco?
Isso é como conto de vigálio à pultuguesa!
E
não entrei. Voltei para casa e lá foi para a tal gaveta da vergonha o abre-latas
que latas se recusa abrir a fazer companhia ao comando que não comanda, às
lâmpadas que luz não dão e às tomadas que se recusam a tomar seja o que for.
A
bicha do chuveiro, por raiva de duche a meio, fazendo lembrar o duche tentado
na fazenda kibaba, frente à Pedra Verde, em Setembro de 1961, foi directamente
para o lixo!
Mas
fiquem tranquilos, teimoso que sou, de vez em quando ao chinês vou!
E
acabou, com uma abraço ao Rosalvo, que não será fácil enganar outra vez!
Autor: Reis Caçote
2002/2017
O LARGO DE SANTA BARBARA, LISBOA, ONDE TUDO SE FOI CONSTRUINDO
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