Caos no centro do Mundo
A lógica binária no Ocidente leva à conclusão de que o caos é mau e é desordem e o bem é a ordem. Na antiguidade, na Babilónia, o deus mais importante era Marduk, o da Ordem que venceu o Caos.
A moderna Teoria do Caos surge com a ideia fundamental de que, em determinados sistemas, pequenas variações nas condições iniciais podem gerar grandes variações nos resultados finais. Trata-se do famoso “Efeito Borboleta”, que recebeu o nome técnico de “dependência sensível das condições iniciais”. Esta teoria é — continua a ser — uma heresia nos grandes meios de manipulação de opinião, que defendem para os rebanhos a simplicidade das crenças na bondade dos pastores, sejam eles dirigentes de grandes instituições financeiras, de oligarquias que gerem monopólios de produtos essenciais, sejam dirigentes políticos. O Caos ofende a Ordem. O Caos implica renovação. Mas para quem nos pastoreia existe um caos bom, o das crises financeiras e económicas e um caos mau, o das revoltas das massas e das sociedades.
A análise estratégica é, para surpresa de muitos e muitas especialistas de verbo gongórico e pensamento oco — em última estância, uma aplicação da Teoria do Caos.
Quase cinco meses de “análises estratégicas” como prato de substância nas TVs são suficientes para tirar algumas conclusões. A primeira é a da desfaçatez de grande número de “comentadores” que sem arte, nem saber, transmitem um discurso cujo único nexo é o desejo que as “coisas”, a realidade, se encaixe na embalagem que têm de vender. Assistimos, impotentes, a programas de televendas. Acredite e Compre. Não há garantia, nem devoluções. Foi assim com a Pandemia, é agora com a Ucrânia.
As leituras e o estudo são um estorvo ao “comentariado nacional”, devidamente certificado. Tudo para a maioria dos comentadores é simples e está-se mesmo a ver. Light, como as bebidas da moda. Calhou passar por uma revista que tratava da complexidade: Evidência de Estudos sobre Estratégia e a Teoria do Caos. Uma contribuição para a formação de estratégias. Revista Ibero Americana de Estratégia. Em https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=331227120005
Começa o artigo por, cuidadosamente, alertar que as definições do conceito de estratégia são quase tão numerosas quanto os autores que as referem. Embora exista convergência em alguns aspetos que estão na base do conceito, o conteúdo e os processos de formação da estratégia são objetos de abordagens muito diversas que assentam na forma como os autores concebem as organizações e entendem o seu funcionamento. A estratégia é um conceito multidimensional e situacional e isso dificulta uma definição de consenso, mas encontram-se áreas gerais de concordância da natureza da estratégia, entre prática e teoria: (a) a estratégia diz respeito tanto à organização quanto ao ambiente; (b) a essência da estratégia é complexa; © a estratégia afeta o bem-estar da organização; (d) a estratégia envolve questões tanto de conteúdo quanto de processo; (e) as estratégias existem em níveis diferentes; e (f) a estratégia envolve vários processos de pensamento, (entre eles o da complexidade e do caos).
Na formulação da análise estratégica o conteúdo, o processo e o contexto devem ser indissociáveis. Entre os vários elementos para análise estratégica devem ser considerados a posição e a perspetiva dos competidores ou atores, o sentido da sua ação, o foco (objetivo), os recursos e esta é a questão essencial: como pretendem os contendores obter (conseguir/impor) a ordem no caos que podem provocar com a sua ação? O que fazer no dia seguinte?
A influência do ambiente complexo e instável requer novas visões para a análise do processo estratégico. Esses pontos-limite, entre incerteza e certeza, escolhas e ações são possíveis e devem ser realizadas. E devem ser sujeitas a análise. Parafraseando o economista Brain J. Loasby, “se escolhas são possíveis, o futuro não pode ser certo; se o futuro é certo, então não há escolhas”. Ao grosso das tropas de comentadores oficiais nem lhes passa este pormenor da relação entre o futuro e a incerteza pela cabeça. O seu futuro não inclui escolhas. Têm dono e debitam uma lenga-lenga. No fim, o seu pensamento simplista e negador de escolhas é totalitário!
As “coisas”, a realidade é mais complexa do que nos é vendida. Mas ficamos a conhecer uma grande quantidade de caixeiros-viajantes, de promotores de vendas porta a porta, de estagiários a Meninos de Deus, que eu, pessoalmente, desejo que não cheguem à categoria de Inquisidores!
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