terça-feira, 27 de abril de 2021

Texto de Pepe Escobar, agora sobre o discurso do presidente russo, Putin ! Dá para perceber, mesmo que os trate por Xi e Putin! Victor Rosa partilhou

 

Por Pepe Escobar
A fala de Putin perante a Assembleia da Federação Russa – de fato, discurso sobre “O estado da Nação” – foi bem-sucedido movimento de judô que deixou ainda mais boquiabertos os falcões da esfera atlanticista.
O “Ocidente” não foi referido diretamente. Só indiretamente, ou mediante uma metáfora deliciosa de O Livro da Selva de Kipling. Política exterior só apareceu no final, quase como uma lembrança que salta das coxias.
Na maior parte de uma hora e meia, Putin concentrou-se em questões domésticas, detalhando séries de políticas pelas quais o estado russo cuida dos necessitados – famílias de baixa renda, crianças, mães solteiras, jovens profissionais, os sem privilégios – com, por exemplo, de exames gratuitos de saúde até a possibilidade de uma renda universal em futuro próximo.
Claro que teria também de tratar do estado atual altamente volátil das relações internacionais. Surpreendente foi a maneira concisa como Putin escolheu fazê-lo: contra-atacando a russofobia prevalente na esfera atlanticista.
Primeiro, o essencial. A política russa “visa a garantir paz e segurança para o bem-estar de nossos cidadãos e para o desenvolvimento estável de nosso país.”
Mas se “alguém não deseja (…) o diálogo, e escolhe tom egoísta e arrogante, a Rússia sempre encontrará modo de se levantar em defesa de sua posição.”
Destacou “a prática das sanções econômicas e ilegais politicamente motivadas”, para conectá-las com “algo muito mais perigoso” e hoje invisibilizado na narrativa ocidental: “a tentativa recente de organizar um golpe de estado em Belarus e o assassinato do presidente daquele país.” Putin cuidou de destacar que “todos os limites foram ultrapassados”.
O complô para matar Lukashenko exposto pela inteligência russa e de Belarus revelou vários atores apoiados -, e quem os apoiaria? -, pela inteligência dos EUA. Como se poderia prever que faria e fez, o Departamento de Estado dos EUA negou qualquer envolvimento.
Putin: “Vale a pena prestar atenção às confissões dos participantes presos na conspiração, de que estava sendo preparado um bloqueio de Minsk, inclusive da infraestrutura e comunicações da cidade, com derrubada total de toda a rede de energia da capital de Belarus. Medidas essas que, vale lembrar, são preparatórias para massivo ciberataque.”
E isso leva a uma verdade muito incômoda: “Visivelmente não é por acaso que nossos colegas ocidentais tenham rejeitado tão obsessivamente numerosas propostas apresentadas pelo lado russo para estabelecer diálogo internacional no campo da informação e da ciber-segurança.”
“Assimétrica, rápida e dura”
Putin observou que “atacar a Rússia” tornou-se “um esporte, um novo esporte, que se manifesta aos gritos.” E daí mergulhou fundo em Kipling: “A Rússia é atacada cá e acolá, sem qualquer razão. E, claro, todos os tipos de Tabaquis[1] [chacais] mesquinhos correm à volta de Shere Khan [o tigre] – tudo sempre como no livro de Kipling – latindo e uivando e prontos a obedecer ao soberano deles. Kipling foi grande escritor”.
A metáfora – profunda, em camadas – é ainda mais surpreendente, porque ecoa o Grande Jogo geopolítico entre os impérios britânico e russo, jogo do qual Kipling foi protagonista.
Mais uma vez, Putin teve de destacar que “nós realmente não queremos queimar quaisquer pontes. Mas se alguém toma nossas boas intenções por indiferença ou fraqueza, e conta com queimar completamente aquelas pontes ou pô-las abaixo, que fique sabendo que a resposta da Rússia será assimétrica, rápida e dura”.
Tem-se aqui a nova lei da selva geopolítica – apoiada pelo Sr. Iskander, Sr. Kalibr, Sr. Avangard, Sr. Peresvet, Sr. Khinzal, Sr. Sarmat, Sr. Zircon e outros muito respeitados cavalheiros hipersônicos e outros, adiante elogiados ao vivo. Quem cutucar o Urso a ponto de ameaçar “os interesses fundamentais de nossa segurança lamentará o que tiver feito, como não lamenta coisa alguma já há muito tempo.”
Os surpreendentes desenvolvimentos de semanas recentes – a cúpula China-EUA no Alasca (“Leviatã passa frio no Alaska…“); a cúpula Lavrov-Wang Yi em Guilin (“Geopolítica do século 21: Chocada e Apavorada“; a cúpula da OTAN (“EUA/OTAN vs. Rússia-China: guerra híbrida até o osso“); o acordo estratégico Irã-China (“Irã-China: Conexão da Rota da Seda do século 21); o discurso de Xi Jinping no Fórum Boao (“Digam ‘Oi!’ ao novo timoneiro multilateral”) – todos agora se unem numa brutal nova realidade: está acabada a era de um Leviatã unilateral habituado a impor a ferro o próprio desejo.
Para esses russófobos que ainda não captaram a mensagem, um Putin calmo e composto foi forçado a acrescentar, “claro, temos muita paciência, toda a responsabilidade e todo o profissionalismo, a autoconfiança, e plena segurança da correção de nossa posição; e bom-senso, quando se trata de tomar decisões. Mas espero que ninguém cogitará de cruzar as chamadas ‘linhas vermelhas’ da Rússia. E nós determinamos, caso a caso, onde as traçamos.”
De volta à realpolitik, Putin mais uma vez teve de destacar a “responsabilidade especial” dos “cinco estados nucleares” para discutir seriamente “questões relacionadas ao armamento estratégico”. Está aberta a questão de se o governo Biden-Harris – por trás do qual jaz um coquetel tóxico de imperialistas neoconservadores e humanitários – concordará.
Putin: “O objetivo dessas negociações pode ser criar um ambiente de coexistência livre de conflitos, baseado em segurança igual, cobrindo não só armas estratégicas como mísseis balísticos intercontinentais, bombardeiros e submarinos pesados, mas também, eu gostaria de enfatizar, todos os sistemas ofensivos e defensivos capazes de cumprir tarefas estratégicas, independente dos respectivos equipamentos.”
Assim como o discurso de Xi ao Fórum Boao foi principalmente dirigido ao Sul Global, Putin destacou como “estamos expandindo contatos com nossos parceiros mais próximos na Organização de Cooperação de Xangai, os BRICS, a Comunidade de Estados Independentes e os aliados da Organização do Tratado de Segurança Coletiva”, e exaltou “projetos conjuntos no quadro da União Econômica Eurasiana”, apresentados como “ferramentas práticas para resolver os problemas do desenvolvimento nacional.”
Em resumo: integração em efeito, acompanhando o conceito russo de “Eurásia Expandida”.
“Tensões beiram níveis de tempo de guerra”
Comparem-se agora tudo que acima se lista e a “Ordem Executiva da Casa Branca” (15/4/2021, ing.) declarando uma “emergência nacional” ter de “lidar com a ameaça russa”.
É documento diretamente conectado – na verdade, conectado ao combo que diz ao presidente Biden o que fazer, completado por ponto de ouvido e teleprompter – à promessa que Biden fez ao presidente Zelensky da Ucrânia, de que Washington “tomará medidas” para apoiar o pensamento delirante desejante de Kiev, que quer retomar o Donbass e a Crimeia.
Há várias questões que fazem torcer narizes nessa Ordem Executiva. A ordem nega, de facto, a qualquer cidadão russo o pleno direito a propriedades nos EUA. Qualquer cidadão dos EUA pode ser acusado de ser agente russo engajado em minar a segurança dos EUA. Um sub-sub parágrafo (C), que detalha “ações ou políticas que minam processos democráticos ou instituições nos EUA ou no exterior”, é suficientemente vago para ser usado para eliminar qualquer jornalismo que apoie as posições da Rússia em negócios internacionais.
A compra de papéis do Tesouro russo (ru. OFZ; ing. Federal Loan Obligations) foi sancionada, e também uma das empresas que participam da produção da vacina Sputnik V. E a cereja do bolo dessa sanção pode ser que, doravante, todos os cidadãos russos, incluindo portadores de dupla nacionalidade, podem ser impedidos de entrar em território dos EUA exceto se portadores de uma rara e especial autorização, além do visto ordinário.
O jornal russo Vedomosti observou que nessa atmosfera paranoide aumentam significativamente os riscos para grandes empresas como Yandex ou Kaspersky Lab. Mas apesar disso, as novas sanções não foram recebidas com surpresa em Moscou. O pior ainda está por vir, segundo insiders do governo dos EUA: dois pacotes de sanções contra o gasoduto Nord Stream 2 já aprovados pelo Departamento de Justiça dos EUA.
O ponto crucial é que essa Ordem Executiva de Biden realmente converte em ameaça potencial à “democracia norte-americana” quem quer que noticie as posições políticas da Rússia. Como observou o importante analista político Alastair Crooke, é “procedimento usualmente reservado para cidadãos de estados inimigos, durante tempos de guerra”. E Crooke acrescenta que “os falcões norte-americanos estão subindo ferozmente a aposta contra Moscou. Tensões e retórica já beiram níveis de tempos de guerra.”
Permanece aberta a questão de se o discurso “Estado da Nação” de Putin será examinado com seriedade pelo combo tóxico de neoconservadores e imperialistas humanitários lunáticos dedicados a provocar simultaneamente Rússia e China.
Mas fato é que algo extraordinário já começou a acontecer: uma espécie de “desescalada”.
Já antes da fala de Putin, Kiev, OTAN e o Pentágono aparentemente captaram a mensagem implícita no movimento dos russos, que deslocaram dois exércitos, baterias de artilharia massiva e divisões aeroembarcadas para as fronteiras do Donbass e para a Crimeia – para não falar de importantes ativos navais deslocados do Cáspio para o Mar Negro. A OTAN não pode nem sonhar com mobilizar força semelhante.
Fatos em diferentes campos são eloquentes. A possibilidade de Kiev confrontar diretamente a Rússia assustou terrivelmente ambas capitais, Paris e Berlin, que puseram em campo seus lobbies, a trabalhar ativamente contra a ideia, deixando de lado a União Europeia e a OTAN.
Então alguém – pode ter sido Jake Sullivan – deve ter sussurrado junto ao ponto-de-orelha do Boneco que ninguém anda por aí insultando o chefe de um estado nuclear e espera conservar a própria ‘credibilidade’ global. Assim, depois daquele hoje famoso telefonema de “Biden” para Putin, veio o convite para a cúpula sobre mudança climática, onde as mais belas promessas são quase totalmente só retóricas, dado que o Pentágono continua a ser a maior entidade poluidora sobre o planeta Terra.
Assim é que Washington pode ter encontrado um jeito de preservar pelo menos uma via de diálogo com Moscou. Ao mesmo tempo, Moscou não cultiva qualquer ilusão de que o drama Ucrânia/Donbass/Crimeia esteja superado. Ainda que Putin não o tenha mencionado no “Estado da Nação”. E ainda que Shoigu, ministro da Defesa, tenha ordenado uma desescalada.
O sempre inestimável Andrei Martyanov observou em júbilo o “choque cultural, quando Bruxelas e D.C. começaram a desconfiar de que a Rússia não ‘quer’ a Ucrânia. O que a Rússia quer é que aquele país apodreça e imploda sem que excrementos da implosão atinjam a Rússia. Fazer o ocidente pagar pela faxina daquele “completo fracasso e grave problema no qual se cometeram muitos erros e geraram-se muitos problemas, tudo ao mesmo tempo” (ing. clusterf**k) também está nos planos da Rússia para o Bantustão ucraniano”.
O fato de Putin sequer ter mencionado o Bantustão em sua fala à Assembleia da Federação Russa corrobora essa análise. No que tenha a ver com “linhas vermelhas”, a mensagem implícita de Putin é a mesma: uma base da OTAN no flanco ocidental da Rússia simplesmente não será tolerada. Paris e Berlin sabem disso. A UE permanece em crise de negação compulsiva. A OTAN sempre se recusará a admitir.
Sempre se volta à mesma questão crucial: se Putin conseguirá, contra todas as probabilidades, aparecer com movimento combinado Bismarck-Sun Tzu e construir uma entente cordiale alemã-russa (o que está muito longe de ser “uma aliança”). Nord Stream 2 é engrenagem essencial nessa roda – o que enlouquece os falcões de Washington.
Aconteça o que acontecer na sequência, desceu a Cortina de Ferro 2.0, para todas as finalidades práticas e descida permanecerá. Haverá mais sanções. Já atiraram de tudo contra o Urso, exceto guerra quente. Será interessantíssimo assistir a como, e por quais passos, Washington cuidará de “um processo diplomático e de desescalada” com a Rússia.
O hegemon pode sempre encontrar via para impor massiva campanha de Relações Públicas (?!) e acabar por criar algum tipo de ‘sucesso diplomático’ na ‘dissolução’ do impasse. OK, sempre melhor, claro, que guerra quente. Ou, se não, aventureiros do Livro da Selva que fiquem avisados: tentem qualquer gracinha e preparem-se para trombada “assimétrica, rápida e dura”.
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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais
Originalmente Strategic Culture Foundation / Tradução: Pravda.ru
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Texto de Pepe Escobar sintetizando(à sua maneira) o discurso de Xi Jinping no Forum anual de Boao, em Hainan

 

Por Pepe Escobar
Em tempos de graves problemas geopolíticos, cabe a um verdadeiro estadista subir no púlpito global e desarmar uma atmosfera nociva de Guerra Fria 2.0. Foi isso que o Presidente Xi Jinping fez em seu discurso de abertura no Fórum anual de Boao, em Hainan.
Aqui está o discurso completo. E vamos começar com uma única frase:
Ao atravessarmos a pandemia de Covid-19, pessoas de todos os países perceberam mais claramente que é necessário abandonar a mentalidade da guerra fria e o jogo de soma zero, e se opor a qualquer forma de nova guerra fria e confronto ideológico.
A platéia de Boao, uma espécie de reunião de Davos chinesa, era composta não apenas de convidados pan-asiáticos. Significativamente, Elon Musk, da Tesla; Tim Cook, da Apple; Stephen Schwarzman da Blackstone e Ray Dalio da Bridgewater, entre outros, estavam dando a Xi total atenção.
Em um discurso relativamente breve, Xi mais uma vez expôs a arquitetura do multilateralismo – e como a China se enquadra no “de volta ao status de superpotência”. A mensagem pode ter sido sutilmente dirigida ao Hegêmona, mas acima de tudo a uma Eurásia em rápida integração, assim como a todo o Sul Global.
Xi enfatizou o multilateralismo como o reino da justiça, não da hegemonia, caracterizando a “ampla consulta”, grandes países se comportando “de forma adequada ao seu status e com maior senso de responsabilidade”, e tudo isso levando a “benefícios compartilhados”, não ao bem-estar dos 0,001%.
Pequim vê uma economia mundial aberta como o caminho para o multilateralismo – o que implica na ausência de “muros” e não “desacoplamento”, com a China abrindo progressivamente sua própria economia e impulsionando a interconexão das cadeias de abastecimento, economia digital e inteligência artificial (IA).
Em resumo, isso é o Made in China 2025 em ação – sem se referir à terminologia que foi muito demonizada durante a era Trump.
O multilateralismo e a economia aberta são componentes-chave da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) – que não é apenas um vasto modelo de comércio/desenvolvimento, mas também o conceito global de política externa da China.
Assim, Xi mais uma vez teve que enfatizar que a ICR é “uma rota pública aberta a todos, não um caminho privado de propriedade de uma única parte”. Trata-se tanto de alívio da pobreza, crescimento econômico e infra-estrutura “conectividade pesada” quanto de “conectividade branda (soft)” – o que inclui “cooperação no controle de doenças infecciosas, saúde pública, medicina tradicional e outras áreas”.
É bastante revelador que quando Xi mencionou a adoção de vacinas chinesas, ele a ilustrou com dois exemplos do Sul Global: O Brasil e a Indonésia.
A China e o novo líder multilateral | Pepe Escobar 1
Como seduzir o Sul Global
A abordagem chinesa de um novo padrão de relações internacionais traz elementos tanto de Confúcio como do Tao. Daí a ênfase na “comunidade de destino compartilhado” aplicada globalmente, e a recusa de uma “mentalidade de Guerra Fria e de soma zero”, bem como de “confronto ideológico sob quaisquer formas”.
A ênfase está na “igualdade, respeito mútuo e confiança mútua” na vanguarda das relações internacionais, assim como “intercâmbios e aprendizagem mútua entre civilizações”. A esmagadora maioria do Sul Global certamente capta a mensagem.
No entanto, tal como está, a Realpolitik dita que a Guerra Fria 2.0 já está em vigor, colocando Washington contra a parceria estratégica Rússia-China. A área chave onde o jogo é jogado é, de fato, todo o Sul Global.
Portanto, Xi deve estar ciente de que o ônus de provar “um novo tipo de relações internacionais” está em Pequim e é o caminho preferido.
O Sul Global estará muito ciente dos esforços da China “para fazer mais para ajudar os países em desenvolvimento a derrotar o vírus” e “honrar seu compromisso de fazer das vacinas um bem público global”.
Em um nível prático, isto será tão crucial quanto manter a China sob controle em referência à promessa de Xi de que o estado-civilização “nunca buscará hegemonia, expansão ou uma esfera de influência, por mais forte que ela possa crescer”. O fato é que grandes extensões da Ásia são uma esfera de influência econômica natural da China.
A União Européia estará fortemente focada na “cooperação multilateral sobre comércio e investimento” – em referência à ratificação e assinatura, ainda este ano, do acordo comercial China-UE. E as empresas americanas, seguindo cuidadosamente o discurso de Xi, estarão muito interessadas em uma promessa sedutora: “Todos são bem-vindos para participar das vastas oportunidades do mercado chinês”.
As relações internacionais estão agora totalmente polarizadas entre sistemas de governança concorrentes. No entanto, para a esmagadora maioria dos atores do Sul Global, especialmente as nações mais pobres, o teste final para cada sistema – como os estudiosos chineses sabem tão bem – é a capacidade de fazer avançar a sociedade e melhorar a vida das pessoas.
Os estudiosos e formuladores de políticas chineses privilegiam o que eles definem como planos de desenvolvimento SMART (específicos, mensuráveis, alcançáveis, relevantes, calendarizados).
Isto se traduziu na prática em confiança pela maioria dos cidadãos chineses em seu modelo político – quaisquer que sejam as interpretações do Ocidente. O que importa é como Pequim passou o menor tempo possível para controlar a Covid-19; como a economia está crescendo novamente; como a redução da pobreza foi um enorme sucesso (800 milhões de pessoas fora da pobreza em três décadas; 99 milhões de pessoas do campo e 128 mil vilas rurais na última etapa); e como o objetivo oficial de alcançar uma “sociedade moderadamente próspera” está sendo alcançado.
Pequim, ao longo dos anos, tem cuidadosamente delineado a narrativa de uma “ascensão pacífica” com base em seus imensos legados históricos e culturais.
Na China, a interação entre a ressonância histórica e os sonhos futuros é extremamente complexa para um estrangeiro descodificar. Ritmos do passado estão sempre ecoando no futuro.
O que isto em última análise significa é que o excepcionalismo chinês – bastante óbvio ao longo de séculos de história – é essencialmente baseado no confucionismo, que define a harmonia como uma virtude suprema e abomina o conflito.
E é por isso que a China não seguirá o passado recente beligerante e colonialista do Ocidente hegemônico: mais uma vez, uma das principais mensagens do discurso de Xi em Boao. Se Pequim conseguir imprimir esta narrativa de “missão histórica” em todo o Sul Global – com atos tangíveis e não apenas retórica – então estaremos entrando em um jogo totalmente novo.
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Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais
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