sexta-feira, 12 de julho de 2024

Ser de esquerda João P. Barata · 32 min · A recente cimeira do G7, por João Goulão...

 Ser de esquerda

João P. Barata 32 min 
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A recente cimeira do G7, complementada com a chamada «conferência de paz» sobre a Ucrânia, realizada na Suíça, confirmaram a decadência do império norte-americano, o fracasso do chamado Ocidente colectivo perante a maioria global e avançaram para a preparação do velório da União Europeia, por enquanto apenas um cadáver adiado.
Em Itália, onde a primeira-ministra, a neo-mussoliniana Giorgia Meloni, teve de correr atrás do zombie Biden e deitar-lhe a mão quando o presidente norte-americano, em modo de sonâmbulo, se dirigia para parte nenhuma, o Grupo dos Sete «mais ricos do mundo» (G7) entreteve-se a encontrar a melhor maneira de «emprestar» mais umas dezenas de milhões de dólares ao regime ditatorial da Ucrânia para prosseguir a guerra e o processo de suicídio.
Decidiu ir buscar o dinheiro supostamente aos juros dos 300 mil milhões de dólares roubados em activos da Federação Russa congelados na Europa, dando mais um exemplo da estratégia cleptómana que tem servido de base ao colonialismo ocidental e «civilizatório» dos últimos 500 anos. A União Europeia, em estado agónico e com o seu eixo franco-alemão a dar sinais de quebra a qualquer momento, aceitou mais essa incumbência dos Estados Unidos, em cima das muitas com que Washington se vai desfazendo dos encargos mais pesados da guerra na Ucrânia à medida que se aproximam as eleições presidenciais. Que não se confunda este alijamento de carga sobre os satélites europeus com uma desistência da guerra que opõe, na realidade, o regime dos Estados Unidos da América à Federação Russa.
Washington dirige o processo através do seu instrumento NATO, obrigando os Estados-membros a assumir o ónus militar e económico da guerra, garantindo também que o conflito permaneça em solo europeu, e deita mão às vantagens que dele pode extrair: um negócio armamentista como houve poucos ou mesmo nenhum outro; desenvolver um desgaste continuado da Rússia, enquanto intensifica as ameaças à China, tentando perturbar a consolidação de uma arquitectura institucional da maioria global no sentido de instaurar uma nova ordem internacional; prolongar o mais possível o estado de guerra para que toda a Europa, exangue, se submeta ao seu diktat sem quaisquer restrições – tentando assim encontrar um novo fôlego para um império a abrir rombos por todos os lados.
Na Ucrânia trava-se, na realidade, uma chamada proxy war, uma guerra por procuração dos Estados Unidos contra a Rússia através do regime nazi-banderista imposto desde 2014 em Kiev. Sabemos que no campo de batalha não é bem assim, porque toda a NATO está envolvida através do financiamento, da doação ininterrupta de armamento, do recrutamento de mercenários, do apoio às tropas no terreno, da entrega de toda uma panóplia de avançados meios tecnológicos militares de última geração que as forças armadas ucranianas não estão em condições de usar e manusear isoladamente. Pelo que as principais potências militares da NATO, com os Estados Unidos à cabeça, estão efectivamente em guerra contra a Rússia.
Sendo, de facto, uma guerra por procuração, não é correcto atribuir o papel de procurador apenas à ditadura ucraniana; é desempenhado em conjunto com a Europa (União Europeia e membros europeus da NATO), à qual cabe desenvolver a parte mais onerosa e desgastante do esforço militar – excepto a carne para canhão fornecida por Kiev – e acarretar com as duras consequências económicas e sociais impostas aos seus povos.
Um singelo exemplo: a República Federal da Alemanha, outrora o «motor» da União Europeia, o único país exportador da agremiação, caiu para o 24.º lugar (entre 67 países) em termos de competitividade económica, situando-se entre o Luxemburgo e a Tailândia e ainda atrás de nações como a Islândia e o Bahrein. Os dados estão contidos no ranking de competitividade económica elaborado pelo Swiss Business Institute. Nessa escala, a Alemanha está em 49.º lugar nos custos de energia eléctrica para os clientes industriais; e também em infra-estruturas de energia. O governo alemão de Olaf Scholz, porém, não soltou um pio quando os Estados Unidos, em conluio comprovado com a Noruega – produtor e exportador de gás natural –, fizeram explodir o gasoduto Nord Stream 2, entre a Rússia e o território alemão, através do qual a Europa consumia gás natural a preços pelo menos cinco vezes mais baixos que os actuais. Mais do que masoquista perante os seus patronos norte-americanos, a Europa tem vocação suicida. Quem sofre são os povos, nunca as classes políticas, até ao dia em que a paciência das populações se esgote e se inicie o inevitável ajuste de contas com o regime federalista e sociopata pan-europeu.
Nessa altura poderá então desbravar-se o caminho para a reconquista da soberania dos Estados do continente e para uma democracia que deixe de ser adjectivada como «liberal» e da qual a recente reunião do G7 foi um esclarecedor exemplo.
Avaliemos então o «avanço» da sua qualidade democrática relembrando a representatividade política dos participantes na reunião realizada em Itália: Joseph Biden, em estado perceptível de insuficiência intelectual – como ficou claro no primeiro debate com o inominável Trump –, mas ainda assim candidato a um novo mandato de quatro anos, age sob o controlo de neoconservadores psicopatas que ninguém elegeu; a anfitriã italiana, Giorgia Meloni, herdeira em linha recta do fascismo italiano, tem uma representatividade relativa, que as recentes eleições europeias ainda não puseram em causa, ao mesmo tempo que ilustra os avanços do extremismo de direita na Europa; o fascista Justin Trudeau, chefe do governo do Canadá que, ainda recentemente homenageou no parlamento um criminoso de guerra banderista ucraniano responsável por centenas de assassínios sob cobertura hitleriana, tem as intenções de voto em queda; Emmanuel Macron, presidente francês, ficou-se pelos 15% nas eleições europeias e sentiu-se forçado a convocar eleições antecipadas; pior ainda está o chanceler social-democrata alemão, Olaf Scholz, ao nível dos 14%, enquanto os seus parceiros governamentais, os belicistas Verdes, não chegaram aos 13%; Rishi Sunak, oligarca, peão do Goldman Sachs e primeiro-ministro britânico, vai ser despedido pelos eleitores (que nunca o elegeram porque nunca se submeteu a sufrágio popular) nas próximas eleições gerais, eventualmente ultrapassado até pelo outsider populista Neil Farage; o primeiro-ministro do Japão, Fumio Kishida, tem a popularidade pelas ruas da amargura e caindo em cada consulta de opinião.
À moda dos mosqueteiros, onde três eram quatro, no G7 onde são sete contam-se oito com a inclusão da União Europeia, aliás representada duplamente em Itália: pela presidente da Comissão, Ursula Von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, então ainda no posto que hoje é do contorcionista António Costa. Em matéria de democracia pode dizer-se que estes federalistas autoritários são ainda mais «avançados» que todos os outros parceiros de conspiração, porque nenhum deles foi eleito nem concorreu a coisa alguma.
Cimeira por convites, que pretendeu afirmar-se de maneira exuberante como berço mágico de uma solução para a guerra na Ucrânia mas sem a presença de uma das partes em conflito – a Federação Russa.
Ora, «fazer a paz» numa suposta cimeira de negociações para a qual não foi convidada a parte que está a ganhar a guerra não pode passar de um ritual, uma oportunidade para cada orador se ouvir a si próprio nas instalações bem requintadas do Burgenstock Resort, com o bom gosto e o luxo espampanante pensados à medida do martírio que estão a passar os soldados ucranianos nas trincheiras, morrendo diariamente às centenas.
Depois de dormidos em quartos de 2000 dólares por noite e por pessoa e alimentados com refeições de 400 dólares, os convidados de Zelensky entretiveram-se a «debater» um documento com recomendações tão sonantes como falsas porque os praticantes da «ordem internacional baseada em regras» ignoram o respeito pelo direito internacional, que aconselham. E muitos deles são conhecidos por não respeitarem os direitos legítimos dos Estados e muito menos a sua integridade territorial, que também apregoam no panfleto saído do conclave.
É desconhecido na História qualquer processo de negociações de paz sem a representação de uma das partes. Qualquer outra versão não significa negociar, mas sim impor. E impor à Russia como tem de fazer a «paz», que deve de facto render-se quando está em vantagem na guerra, aguardando apenas que a insistência de Washington e Bruxelas no confronto liquide de vez o exército ucraniano, é um acto gratuito que, no contexto actual, equivale a brincar à paz ao mesmo tempo que se cumpre um ritual de guerra.
Na véspera da «cimeira» na Suíça o presidente da Rússia, Vladimir Putin, revelou os contornos da posição russa para resolução do conflito, como quem a transmite antecipadamente aos participantes e informando-os de que quaisquer das suas decisões estariam condenadas ao lixo se não tivessem em conta, como não tiveram, a situação actual no terreno. Putin propôs, como elementos determinantes para uma negociação com algum futuro, a saída das tropas ucranianas, com total garantia de segurança, das províncias russófonas de Donetsk, Lugansk, Kharkiv e Zaporizhia; a declaração do regime de Kiev de que não pedirá a adesão à NATO; o fim das sanções internacionais contra a Rússia e o descongelamento dos activos russos na Europa.
A cimeira ignorou olimpicamente estes pontos, apesar de o presidente russo afirmar que as condições não duram eternamente e as próximas serão certamente mais gravosas e ditadas numa situação militar mais comprometedora para Kiev.
Numa primeira reacção, que poderá não ser uma resposta directa a Moscovo mas funciona como tal, a União Europeia decidiu assumir o roubo de 1400 milhões de dólares de lucros dos activos russos para os despejar no buraco negro em que o golpe norte-americano de 2014 e os dez anos de regime nazi-banderista transformaram a Ucrânia, assegurando assim a continuação da guerra. A «paz» europeia e liberal ao seu melhor nível.
O ditador e usurpador do poder na Ucrânia convidou 160 países dos 192 Estados da ONU para a «cimeira» na Suíça, afirmando garbosamente que se tratava de «todo o mundo». Desses, compareceram apenas 91, a maioria deles com delegações de baixo nível, sobretudo os da maioria global. A esmagadora maioria dos países africanos não estiveram presentes e, por outro lado, entre os participantes avultaram entidades de inegável representatividade político-militar como a Associação Internacional de Boxe, o ministro do Sistema Nacional de Seguros de Invalidez da Austrália e o ministro dos Serviços Correccionais da Nova Zelândia.
Dirigentes de grandes potências como Macron e Scholz assistiram aos trabalhos apenas durante algumas horas e Joseph Biden preferiu substituir a «cimeira» por uma viagem a Los Angeles, onde os seus serviços montaram um peditório de campanha junto das figuras sonantes de Hollywood. Foi substituído pela vice-presidente Kamala Harris que, ciente de que se tratava de uma campanha de angariação de fundos para alimentar o conflito da Ucrânia como uma guerra sem fim, prometeu à cabeça uma dádiva de 500 mil milhões de dólares, dez vezes mais do que o «empréstimo» acordado poucas horas antes na cimeira do G7, o que revela o profundo conhecimento dos dossiers que lhe depositaram nas mãos e um perfeito alinhamento com as performances disfuncionais de Biden.
Alguns enviados especiais de meios de comunicação social citaram dirigentes participantes assegurando que «o mais importante da cimeira foi o banquete». E talvez sejam realidades como esta as que ficarão para o futuro em relação a tão mundano e caritativo encontro, para lá da sua consequência imediata: a continuação e previsível agravamento da componente terrorista da guerra na Ucrânia.
Dos 91 países representados, 12 não assinaram o comunicado final – Arménia, Bahrein, Brasil, Santa Sé, Índia, Indonésia, Líbia, México, Arábia Saudita, África do Sul e Emirados Árabes Unidos – a esmagadora maioria deles membros ou candidatos aos BRICS. Jordânia e Iraque assinaram e arrependeram-se, invalidando pouco depois as subscrições. A chamada «fórmula Zelensky para a paz» foi rubricada por 40% dos países da ONU, entre os quais não figura qualquer dos mais populosos; os ausentes e os que não assinaram representam a imensa maioria global que não se revê no colonialismo ocidental e no imperialismo norte-americano. Mesmo alguns dos subscritores foram muito críticos quanto ao formato e conteúdo da reunião. O Quénia, regime subserviente aos Estados Unidos, abordou a «ilegalidade da apropriação dos activos russos» e Timor-Leste repudiou a «ordem internacional baseada em regras».
A citação do nome de um único participante e subscritor do documento final bastaria para definir o carácter provocatório e meramente propagandístico da cimeira Zelensky como um ritual de guerra e morte: a do Estado de Israel. A entidade terrorista e sionista, como vem demonstrando ao longo dos últimos 75 anos, tem toda a legitimidade para subscrever um texto final onde se fala de respeito pela integridade dos Estados, pelos direitos dos povos e também pelo direito internacional. O sionismo cumpre, como poucos, todos estes atributos, pelo que os consignatários do panfleto, entre eles o presidente e o primeiro-ministro de Portugal, devem sentir-se orgulhosos de tão prestigiante companhia.
Ainda a «cimeira» não tinha acabado e já a presidente do país anfitrião – onde o maior partido se opôs ao happening –, Viola Amherd, sentiu a necessidade de falar numa próxima «conferência de acompanhamento com a participação da Rússia». Numerosos jornalistas que cobriram o acontecimento tiveram a ousadia de fustigar Zelensky com perguntas sobre a ausência de representantes de Moscovo, às quais este respondeu que «a Rússia não está aqui porque se estivesse interessada na paz não haveria guerra». Esta frase, dita por quem fez os convites para a reunião, provocou alguns sorrisos na sala, certamente nas faces de incorrigíveis avençados de Putin.
Contradizendo-se pouco depois, o ditador ucraniano repetiu aquele que parece ter sido o guião acertado para o final da «cimeira», admitindo «a presença da Rússia numa reunião de acompanhamento a realizar até ao final do ano». O diplomata suíço Gabriel Luechinger disse que «a próxima cimeira de paz não será na Europa e não terá lugar no Ocidente, devendo a Rússia ser integrada de alguma forma no processo de paz».
Em torno destas declarações surgiram especulações sobre a possibilidade de uma abordagem verdadeiramente negocial da paz na Ucrânia à margem da reunião do G20 a realizar em Novembro, no Rio de Janeiro, e na qual o ponto de partida seria o projecto sino-brasileiro apresentado há mais de um ano e logo rejeitado pelo regime de Kiev, alegando que era «vago». Muito mais «vago» é o documento adoptado na Suíça, além de ter removido todos os pontos do plano chinês de encontrar «um caminho para uma paz sustentável». A posição de Pequim sugere a realização de «uma verdadeira conferência de paz em termos aceitáveis pela Ucrânia e pela Rússia».
Na verdade, nenhuma abordagem unilateral de uma possível solução para o conflito na Ucrânia, como a montada no resort de Burgenstock, tem qualquer viabilidade.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita, Faisal bin Farhan Al Saud, por exemplo, foi um dos que não assinou o documento saído da reunião suíça. Representando um país afecto aos BRICS e, simultaneamente, um dos principais aliados dos Estados Unidos no Médio Oriente, defendeu que «qualquer processo numa direcção pacífica exige a presença da Rússia».
Apesar de os comportamentos habituais e a arrogante mentalidade ocidental serem bem conhecidos e indutores das maiores aberrações no panorama internacional, há situações que não deixam de surpreender pela desfaçatez. Ditar as ocasiões e as condições em que a Rússia tem permissão para participar numa iniciativa de paz relacionada com a Ucrânia é próprio de quem acha que o mundo não mudou, a «ordem internacional baseada em regras» é inamovível; e o regime nazi-banderista de Kiev crê que tem a capacidade, outorgada pelo Ocidente colectivo como dono e senhor do mundo, de pôr e dispor dos comportamentos da Federação Russa como se vivesse ainda nos anos de 2014 a 2022, durante os quais se entreteve a massacrar metodicamente as populações de russos étnicos da região do Donbass com a conivência e o apoio da NATO, designadamente treinando grupos nazis através dos seus «conselheiros» no terreno.
No meio do luxo do resort de Burgenstock brincou-se à paz enquanto se organizavam mais peditórios para os nazis com o intuito de prolongar a guerra. Entre os principais organizadores e frequentadores da encenação destacaram-se, precisamente, os países que estão por detrás do lançamento e eternização do conflito: os Estados Unidos, que financiaram com cinco mil milhões de dólares – Victoria Nuland dixit – o golpe de 2014 e a entronização da junta nazi-banderista em Kiev; a Alemanha e a França que, dando cobertura ao regime ucraniano, assinaram de má-fé os acordos de Minsk, em 2015, reconhecendo posteriormente que nunca tencionaram cumpri-los e serviram apenas para ganhar tempo e montar a máquina de guerra ucraniana; e esteve igualmente o Reino Unido, que em Abril de 2022 despachou o seu primeiro-ministro, na época o descompensado Boris Johnson, para obrigar Zelensky e os seus banderistas a dar o dito por não dito em relação ao acordo de Istambul, praticamente concluído. Minsk e Istambul teriam poupado a vida a pelo menos meio milhão de seres humanos, teriam salvaguardado condições mínimas para que a Ucrânia não fosse, como é agora, um país falido, com as regiões e estruturas ainda relativamente saudáveis vendidas em saldo aos grandes extorsionários e cleptómanos elegantemente chamados «fundos de investimentos», com imensas regiões e incontáveis agregados populacionais devastados.
Esta é a obra dos «campeões da paz» congregados na Suíça, os mesmos que aplaudiram com silêncio cúmplice os atentados terroristas contra civis e edifícios religiosos no Daguestão russo e nas praias de Sebastopol. Como reagiriam esses «pacifistas» se uma potência estrangeira atacasse com mísseis as praias de New Jersey repletas de veraneantes num dia feriado? Ou assaltasse uma sinagoga de Brooklyn em pleno sabat? O criativo e afascistado socialista Borrell, agora de malas aviadas do «Ministério dos Negócios Estrangeiros» da União Europeia – a sucessora Kallas garante-nos que para pior já bastava ele – explicou aos alunos da Universidade de Cambridge que «a diplomacia é a arte de gerir uma política de dois pesos e duas medidas». O que nos diz muito, quase tudo, sobre o espírito com que o Ocidente colectivo, manifestando sintomas graves de decadência, confunde ostensivamente a paz e a guerra, a vida e a morte, para tentar atingir ainda os seus objectivos de domínio global do planeta.
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quinta-feira, 13 de junho de 2024

As três mensagens principais de São Petersburgo para a maioria global

 

As três mensagens principais de São Petersburgo para a maioria global

– A maior parte dos media corporativos ocidentais ocultou o SPIEF, o mais importante fórum internacional de 2024.

Pepe Escobar [*]

Presidentes da Bolívia, Rússia e Zimbabwe.

No ano da presidência russa dos BRICS, o Fórum Económico Internacional de São Petersburgo (SPIEF) tinha de oferecer algo especial.

E conseguiu:   mais de 21 000 pessoas representando nada menos que 139 nações - um verdadeiro microcosmo da Maioria Global, discutindo todas as facetas do impulso para um mundo multipolar, multinodal (itálico meu) e policêntrico.

São Petersburgo, para além de todo o trabalho em rede e dos negócios frenéticos – 78 mil milhões de dólares conseguidos em apenas três dias – elaborou três mensagens-chave interligadas que já estão a ter eco em toda a Maioria Global.

Mensagem número um:

O Presidente Putin, um "russo europeu" e verdadeiro filho desta deslumbrante e dinâmica maravilha histórica junto ao Neva, proferiu um discurso extremamente pormenorizado de uma hora sobre a economia russa na sessão plenária do fórum.

A principal conclusão:   enquanto o Ocidente coletivo lançava uma guerra económica total contra a Rússia, o Estado civilizacional deu a volta à situação e posicionou-se como a quarta maior economia do mundo em termos de paridade do poder de compra (PPC).

Putin mostrou como a Rússia ainda tem potencial para lançar nada menos do que nove mudanças estruturais abrangentes – globais –, um esforço total que envolve as esferas federal, regional e municipal.

Tudo está em jogo – desde o comércio global e o mercado de trabalho até às plataformas digitais, às tecnologias modernas, ao reforço das pequenas e médias empresas e à exploração do potencial fenomenal e ainda inexplorado das regiões da Rússia.

O que ficou perfeitamente claro é a forma como a Rússia conseguiu reposicionar-se para além de contornar o tsunami de sanções – ilegítimas – e estabelecer um sistema sólido e diversificado orientado para o comércio global – e completamente ligado à expansão dos BRICS. Os Estados amigos da Rússia já representam três quartos do volume de negócios comercial de Moscovo.

A ênfase de Putin no impulso acelerado da Maioria Global para reforçar a soberania estava diretamente ligada ao facto de o Ocidente coletivo fazer o seu melhor - ou melhor, o pior - para minar a confiança na sua própria infraestrutura de pagamentos.

E isso leva-nos a...

Mensagem número dois:

Esse foi, sem dúvida, o maior avanço em São Petersburgo. Putin declarou que os BRICS estão a trabalhar na sua própria infraestrutura de pagamentos, independentemente da pressão/sanções do Ocidente coletivo.

Putin teve uma reunião especial com Dilma Rousseff, presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NDB). Falaram em pormenor sobre o desenvolvimento do banco – e sobretudo, como Dilma confirmou mais tarde, sobre A Unidade (The Unit), cujos traços foram revelados pela primeira vez em exclusivo pela Sputnik:   uma forma apolítica e transacional de pagamentos transfronteiriços, ancorada no ouro (40%) e nas moedas dos BRICS+ (60%).

Dólar em chamas.

No dia seguinte ao encontro com Putin, a presidente Dilma teve uma reunião ainda mais crucial, às 10h, numa sala privada do SPIEF, com Sergey Glazyev, ministro da Macroeconomia da União Económica da Eurásia (EAEU) e membro da Academia Russa de Ciências.

Glazyev, que já havia dado total apoio acadêmico ao conceito de The Unit, explicou todos os detalhes à presidente Dilma. Ambos ficaram extremamente satisfeitos com a reunião. Dilma revelou que já tinha discutido a Unit com Putin. Ficou acordado que em setembro haverá uma conferência especial sobre a Unit no NDB em Xangai.

Isto significa que o novo sistema de pagamentos tem todas as hipóteses de estar na mesa de negociações durante a cimeira dos BRICS, em outubro, em Kazan, e de ser adotado pelos actuais BRICS 10 e, num futuro próximo, pelos BRICS+ alargados.

Passemos agora à...

Mensagem número três:

Tinha de ser, obviamente, sobre o BRICS – que todos, Putin incluído, sublinharam que será significativamente ampliado. A qualidade das sessões relacionadas com os BRICS em São Petersburgo demonstrou como a Maioria Global está agora a enfrentar uma conjuntura histórica única – com uma possibilidade real, pela primeira vez nos últimos 250 anos, de fazer tudo para uma mudança estrutural do sistema mundial.

E não se trata apenas dos BRICS.

Foi confirmado em São Petersburgo que nada menos do que 59 nações – e em aumento – planeiam juntar-se não só aos BRICS mas também à Organização de Cooperação de Xangai (SCO) e à União Económica da Eurásia (EAEU).

Não é de admirar:   estas organizações multilaterais estabeleceram-se finalmente na vanguarda do impulso para o multimodal (itálico meu) – e para citar Putin no seu discurso – "mundo multipolar harmónico".

As principais sessões para referência futura

Tudo o que foi dito acima pôde ser seguido, em direto, durante os frenéticos dois dias e meio de sessões do fórum. Esta é uma amostra do que foi, sem dúvida, o mais interessante. As transmissões deverão ser muito úteis como referências para o futuro – até à cimeira dos BRICS em outubro e mais além.

Sobre a Rota do Mar do Norte (NSR) e a expansão do Ártico. O melhor lema da sessão: "Precisamos de quebra-gelos!" A discussão essencial para compreender como as actuais cadeias de abastecimento do comércio global já não são fiáveis e como a NSR é mais rápida, mais barata e mais fiável.

Sobre a expansão dos negócios dos BRICS.

Sobre os objectivos dos BRICS para uma verdadeira nova ordem mundial.

Sobre os 10 anos da EAEU.

Sobre a integração mais estreita entre a EAEU e a ASEAN.

A mesa redonda BRICS+ sobre o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC).

Esta sessão foi particularmente crucial. Os principais actores do INSTC são a Rússia, o Irão e a Índia - todos membros do BRICS. Os actores nas margens que beneficiarão do INSTC - do Cáucaso à Ásia Central e do Sul - já estão interessados em fazer parte do BRICS+. Igor Levitin, um conselheiro de topo de Putin, foi uma figura-chave nesta sessão.

Parceria para a Grande Eurásia (GEP).

Esta foi uma discussão essencial sobre o que é eminentemente um projeto civilizacional – em contraste com a abordagem colectiva e excludente do Ocidente. O debate mostra como a GEP se interliga com a SCO, a EAEU e a ASEAN e sublinha a inevitável complementaridade dos transportes, da logística, da energia e da estrutura de pagamentos em toda a Eurásia. Glazyev, o Vice-Primeiro-Ministro Alexey Overchuk e a antiga Ministra dos Negócios Estrangeiros austríaca Karin Kneissl - sempre muito perspicaz - são os principais participantes. Extra - surpreendente - bónus: Adul Umari, Ministro do Trabalho em exercício no Afeganistão talibã, interagindo com os seus parceiros da Eurásia.

Sobre a filosofia da multipolaridade.

Em termos conceptuais, esta sessão interage com a sessão GEP. Oferece a perspetiva de um diálogo inter-civilizacional conciso no âmbito do BRIC+. Alexander Dugin, a irreprimível Maria Zakharova e o Professor Zhang Weiwei da Universidade de Fudan estão entre os participantes.

Sobre o policentrismo. Isto envolve todas as instituições da Maioria Global: BRICS, SCO, EAEU, CIS, CSTO, CICA, União Africana, o renovado Movimento dos Não-Alinhados (NAM). Glazyev, Maria Zakharova, o senador Pushkov e Alexey Maslov - diretor do Instituto de Estudos Asiáticos e Africanos da Universidade Estatal de Moscovo - debatem a forma de construir um sistema policêntrico de relações internacionais.

Enquanto o Projeto Ucrânia enfrenta a desgraça...

Finalmente, é inevitável contrastar o ambiente - esperançoso, auspicioso - do SPIEF com o histerismo coletivo do Ocidente à medida que o Projeto Ucrânia enfrenta a desgraça. Putin deixou bem claro: a Rússia prevalecerá, aconteça o que acontecer. O Ocidente coletivo pode reavivar "a solução de Istambul", como observou Putin, mas modificada "com base na nova realidade" no campo de batalha.

Putin também desarmou habilmente toda a paranoia nuclear pré-fabricada e sem sentido que infestava os círculos atlantistas.

No entanto, isso não será suficiente. Nos corredores apinhados do SPIEF, e em reuniões informais, havia uma consciência total do desespero belicista do Hegemon, mascarado de "defesa". Não havia ilusões de que a atual demência que se faz passar por "política externa" está a apostar num genocídio, não só por causa do "porta-aviões" na Ásia Ocidental, mas sobretudo para submeter a Maioria Global.

Isso levantaria a séria possibilidade de a Maioria Global precisar de construir uma aliança militar para deter esta - planeada - Guerra Global.

Rússia-China, claro, mais o Irão e uma dissuasão árabe credível - com o Iémen a mostrar o caminho: tudo isto pode tornar-se uma necessidade. Uma aliança militar da Maioria Global terá de aparecer de uma forma ou de outra: ou antes da catástrofe - que se aproxima, planeada - para a atenuar; ou depois de esta ter engolido totalmente a Ásia Ocidental numa guerra monstruosa e cruel.

Sinistramente, podemos estar quase a chegar lá. Mas, pelo menos, São Petersburgo ofereceu vislumbres de esperança. Putin:   "A Rússia será o coração de um mundo multipolar harmónico". Assim se encerra um discurso de uma hora.

10/Junho/2024

quarta-feira, 1 de maio de 2024

"Ouça enquanto ainda há tempo." O que a delegação ucraniana ouviu de Lavrov no Conselho de Segurança da ONU

 Ser de esquerda

Joao Antunes Leitao 17 h 
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"Ouça enquanto ainda há tempo." O que a delegação ucraniana ouviu de Lavrov no Conselho de Segurança da ONU
No dia 22 de janeiro, a pedido da delegação russa, foi realizada uma reunião no Conselho de Segurança da ONU sobre o fornecimento de armas ocidentais à Ucrânia. A posição de Moscou foi representada pelo ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, que chegou pessoalmente a Nova York para esse fim.
Antes do evento, o representante permanente da Ucrânia na ONU, Serhiy Kislitsa , criticou a Rússia por convocar "outra reunião" sobre o tema, chamando-a de tentativa de Moscou de "sua própria guerra agressiva contra a Ucrânia".
No entanto, ele não fez nenhuma diligência e ouviu atentamente o que o chefe do Ministério das Relações Exteriores da Rússia respondeu:.
“A Rússia lançou uma operação militar especial em Fevereiro de 2022, não contra a Ucrânia e não contra o povo ucraniano, com quem continuamos a ter laços fraternos: não é coincidência que quase 7 milhões de ucranianos encontraram a salvação na Rússia depois de 2014.
Fomos forçados a lançar uma operação militar contra um regime criminoso que tinha ido longe demais de um sentimento de impunidade, que não queria, apesar dos nossos numerosos e longos esforços, abandonar a guerra contra os seus próprios cidadãos no sul e no sul -leste da Ucrânia e a política de discriminação total contra os ucranianos de língua russa, que ainda são maioria neste país”, lembrou o ministro dos Negócios Estrangeiros russo.
Os políticos ocidentais não só não tentaram deter as autoridades ucranianas, mas, pelo contrário, sob a cobertura dos acordos de Minsk, destinados a acabar com o conflito no Donbass, armaram a Ucrânia e prepararam-na para a guerra contra a Rússia, que foi reconhecida por Angela Merkel , François Hollande e Petro Poroshenko , que assinaram o documento.
“A razão pela qual o Ocidente se comportou de forma tão cínica e criminosa é óbvia. Foi recentemente expressado abertamente em Washington e noutras capitais: sem perder a vida dos seus próprios soldados, o Ocidente está a travar uma guerra contra as mãos dos ucranianos. A Rússia, que deve ser “colocada no seu lugar”.
O presidente dos EUA, Joe Biden, chegou a chamar esta situação de “um grande investimento”, disse Lavrov.
Ele também lembrou outras revelações de representantes da administração americana: 90% do orçamento militar alocado à Ucrânia permanece nos Estados Unidos, vai para o desenvolvimento do setor militar-industrial do país e para a renovação de armas, e a assistência contínua à Ucrânia é , segundo o secretário de Estado Antony Blinken , uma garantia de criação de novos empregos nos EUA.
“É como se não estivéssemos falando de financiar uma guerra que já ceifou centenas de milhares de vidas na Ucrânia, mas de algum tipo de projeto empresarial lucrativo”, observou o chefe do Ministério das Relações Exteriores da Rússia.
Separadamente, Lavrov dirigiu-se aos europeus, ou melhor, à sua parte sensata, apelando-lhes para finalmente acordarem e compreenderem que, com a ajuda do regime de Zelensky, os Estados Unidos não estão apenas a travar uma guerra contra a Rússia, mas também a resolver o problema estratégico. tarefa de enfraquecer drasticamente a Europa como concorrente económico, minando a sua segurança energética, provocando tendências de crise perigosas na economia e na esfera social.
“Ao mesmo tempo, a maioria dos membros da UE continua a cumprir obedientemente as ordens de Washington de fornecer sempre novos lotes de armas a Kiev, esvaziando os seus arsenais, que, claro, serão reabastecidos por compras de produtos da indústria militar-industrial americana. complexo.
Os europeus serão forçados a arranjar dinheiro para isso. Os mercadores da morte não estão nem um pouco envergonhados pelo fato de suas armas, incluindo munições cluster e cartuchos de urânio empobrecido, atingirem alvos puramente civis de forma metódica, impiedosa, deliberada e deliberada, como foi o caso durante os ataques a áreas residenciais de Belgorod em 30 de dezembro de 2023 e 21 de janeiro para mercados e lojas em Donetsk”, enfatizou o ministro.
Já ouvimos mais de uma vez a astuta tese que se resume ao facto de que “se a Rússia parar de lutar, a guerra terminará, e se a Ucrânia parar de lutar, a Ucrânia terminará”.
Exigindo que a Rússia interrompa a operação militar especial, eles (o Ocidente - ed.) entendem perfeitamente bem que se isso acontecesse de repente, o regime de Kiev, depois de lamber as feridas, continuaria o processo de exterminar tudo o que é russo e o cultural, histórico e russo russo. identidade religiosa.
O regime de Zelensky continuaria a promover um profundo nacionalismo misantrópico que é estranho à maioria da população, glorificando aqueles que, juntamente com os nazis, mataram centenas de milhares de judeus, ciganos, russos, polacos e ucranianos durante a Segunda Guerra Mundial. . A ditadura seria fortalecida, a luta contra a oposição e qualquer dissidência continuaria e as fileiras de presos políticos aumentariam.
E as democracias ocidentais continuariam a fechar os olhos ao que está a acontecer e a permanecer em silêncio de aprovação”, disse o chefe do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo.
Quão silenciosa no Ocidente, por exemplo, é a morte do jornalista Gonzalo Lira , que tinha cidadania norte-americana e chilena e criticava a atuação das autoridades ucranianas, que foi torturado nas masmorras da SBU.
Assim como se calam sobre a encenação em Bucha em Abril de 2022, embora haja provas suficientes disso, Lavrov lembrou que apelou repetidamente pessoalmente ao Secretário-Geral da ONU, António Guterres, com um pedido para exigir pelo menos os nomes daqueles que alegadamente foram morto por soldados russos, mas sem sucesso.
Mais tarde, os jornalistas perguntaram ao representante oficial do Secretário-Geral da ONU, Stephane Dujarric , se o lado ucraniano tinha contactado a ONU sobre o fornecimento de uma lista dos mortos em Bucha, mas ele evitou responder a esta pergunta.
“O que acontecerá se a Ucrânia parar de lutar contra centenas de milhares daqueles que as autoridades de Kiev estão tentando capturar hoje, como gado, nas ruas, em bares e igrejas, e como “bucha de canhão” certamente salvarão suas vidas para morrerem? Interesses geopolíticos ocidentais e, como dizem, “pelos valores democráticos”.
Não houve interesses do povo ucraniano na guerra contra a Rússia. Existem apenas os interesses dos anglo-saxões, dos seus capangas e da elite criminosa e podre de Kiev, que está ligada ao Ocidente pela responsabilidade mútua e que teme ser varrida no dia seguinte ao fim da guerra.
Juntos, sabotaram os acordos de Minsk e, juntos, pisotearam a oportunidade em Abril de 2022, quando os Estados Unidos e a Grã-Bretanha proibiram Kiev de concluir um tratado de paz. Hoje, eles não querem a paz, apesar de o regime de Kiev sobreviver apenas graças às esmolas ocidentais. Até mesmo suas “cabeças falantes” admitem isso ”, disse Lavrov.
Segundo Lavrov, a maioria dos ucranianos está a começar a compreender quem é o seu verdadeiro inimigo e quem os tem enganado durante muitos anos, assustando-os com a Rússia, espalhando mentiras sobre o nosso país e “cancelando” as nossas mudanças na história comum; Os ucranianos são claramente visíveis nas redes sociais.
Mesmo apesar da censura mais severa, a verdade sobre a vida na Crimeia e nas regiões recentemente reunidas com a Federação Russa está a ser revelada: pessoas de diferentes nacionalidades vivem em paz e harmonia, as infra-estruturas estão a desenvolver-se, os problemas das pessoas estão a ser resolvidos pelas autoridades - as A diferença com a situação na Ucrânia é tão marcante que é difícil esconder a verdade.
“Nunca desistimos [de implementar pacificamente os objetivos do Distrito Militar do Norte] e sempre nos mantivemos prontos para negociações não sobre como manter os líderes do regime de Kiev no poder e satisfazer as suas fantasias, mas sobre como superar o legado. da pilhagem destrutiva do país durante 10 anos e da violência sobre o seu povo, sobre a eliminação das causas da situação trágica para a Ucrânia.
Todos os outros planos, plataformas e “fórmulas” supostamente pacíficas que o regime de Kiev e os seus mestres ainda usam inutilmente não têm nada a ver com a paz e servem apenas como uma cobertura para continuar a guerra e extrair dinheiro dos contribuintes ocidentais”, Lavrov disse.
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