quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Carlos Fino 6 d · A EUROPA DE BRAUDEL E A EUROPA DA CASA BRANCA por Carlos Matos Gomes, partilhado por Mena Barbosa Batista Moraes...

 

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A EUROPA DE BRAUDEL E A EUROPA DA CASA BRANCA
por Carlos Matos Gomes
Falar de Europa é forçosamente confrontarmo-nos com o problema dos dez últimos séculos da história do planeta: do domínio do mundo por um continente tão minúsculo. (…)
Dir-se-á que a Europa foi genial, mais genial do que a humanidade não europeia, que a sua técnica foi superior às outras, que a sua agressividade foi mais eficaz, que a sua economia foi mais dinâmica… Mas estas afirmações limitam-se a formular o problema. (Formular os problemas é o que a maioria dos comentadores do espaço público tem feito, os melhores, a maioria limita-se a proferir ladainhas.)
A afirmação a itálico é de Fernand Braudel (1902–1985), um dos nomes maiores da historiografia do século xx, diretor da coletânea de textos reunido no livro «Europa», Terramar, 1996, num artigo intitulado: «A Europa conquista o planeta.» Nos círculos do pensamento único, Braudel seria hoje proscrito como um russófilo, um capacho de Putin.
Que resposta dá Fernand Braudel para o papel da Europa nos últimos dois mil anos?
“Há séculos que a Europa ultrapassou os obstáculos fantásticos da geografia e da dimensão, rompendo os seus «limites naturais». Voltada ao mar e o oceano, muito cedo se tornou num continente «sem margens»: conquistou, dominou os caminhos sem fim da água marinha. E, vista através das suas imagens essenciais de poderio, a Europa é acima de tudo, há séculos, os navios, as frotas que saem dos seus portos ou a eles regressam.
A proeza é a mesma, na verdade, do lado da densidade das terras, rumo à imensidão asiática. A Europa é, por vezes, de acordo com juízos apressados, confinada aos limites orientais da Polónia, mas isso não passa de uma opinião insustentável, isto porque, após o século XVIII, ela anexa de facto as florestas, as planícies, os pântanos, os cursos de água, as cidades, os povos da Rússia, até aos montes Urales, como diziam os velhos. […] Assim, podemos sustentar que uma certa Europa se espraia, sem perder o fôlego, através da imensidão da Sibéria, até Vladivostoque. A Rússia, Europa por si só, filha de Bizâncio e da Grécia, inventou a Sibéria, tal como o Ocidente inventou a América.
Rússia, Sibéria, América esboçam as superfícies essenciais da explosão da Europa através do mundo. São, por excelência, as zonas do seu enraizamento, da sua permanência.”
Braudel, escreveu este artigo antes da subida ao poder de Gorbachev (1985) que prenunciou a dissolução da URSS (1991) e a queda do Muro de Berlim (1989). Para ele, como para os políticos e intelectuais europeus que após a II Guerra Mundial reconstruíram a Europa e idealizaram uma Europa do Atlântico a Vladivostoque — que integrasse as planícies, os pântanos, os rios para além da Polónia, a Ucrânia, de hoje, a Rússia era Europa “ Numa dada igreja do Kremelim com quadros mais que familiares: o Juízo Final, Jonas a sair do ventre da baleia, as trombetas de Jericó…”
Aos pais fundadores da Europa do pós-Segunda Guerra, da reconstrução sempre atentamente controlada de perto pelos Estados Unidos, esses sim, uma criação da Europa e não um elemento dela, sempre foi clara natural a pertença da Rússia ao seu mundo civilizacional, à sua cultura e à sua história. Construir uma Europa com a Rússia era um objetivo estratégico do mais alto alcance, e mereceu sempre a oposição declarada dos EUA, para quem a Europa seria uma província sua, uma velha quinta de família, uma base contra a Rússia, dentro da sua estratégia de novo império em afirmação.
Os Estados Unidos foram controlando com desconfiança e sabotando sempre que puderam e através do Cavalo de Troia da Inglaterra o processo de União Europeia e de integração da Rússia nesse projeto. O ponto de rutura — escamoteado — dos EUA com este projeto ocorre com a dupla Reagan- Tatcher, com a criação do mercado global (a inclusão da China na Organização Mundial do Comércio, que substituiu o acordo geral de taxas e comércio — GATT), com a utilização da China para enfraquecer a Europa através da deslocalização da sua indústria para a Ásia, pela recusa em aceitar uma política comum de defesa europeia, de um mercado comum de energia e de comunicações.
A criação da União Europeia, em substituição da Comunidade Económica Europeia (Tratado de Maastrich — 1993), dotando a União de objetivos políticos para além de um mercado comum, violou as linhas vermelhas estabelecidas pelos ocupantes da Casa Branca de Washington para a Europa. Uma violação que se agravou com a criação do Euro (1999) e, por fim, com o Tratado de Lisboa de 2009.
É curioso notar que o Reino Unido procurará sabotar o processo de criação de uma União Europeia em todas as fases e momentos. Foi sempre essa a sua missão, ao serviço dos EUA (uma tarefa de sapador que De Gaulle percebeu desde o início, impedindo que a Inglaterra entrasse para o clube fundador).
A Inglaterra, com Tatcher e depois com Tony Blair, colocará entraves a todas as medidas integradoras das políticas europeias, arrastará a Europa para as intervenções americanas no Médio Oriente, para o desmembramento da Jugoslávia, para o apoio à ocupação da Palestina e a ocupação dos campos de petróleo da Líbia. Mas, principalmente através de Blair, os ingleses promoveram a chamada política do “sapo fumador” para rebentar com a União Europeia, propondo sucessivas e rápidas integrações dos estados do Leste que haviam pertencido ao Pacto de Varsóvia e ao Comecon (caso da Hungria, da Polónia, da Checoslováquia, da Roménia, dos Estados Bálticos), violando o acordo estabelecido pelo “Ocidente” (Estados Unidos) com Gorbachev de não os incluir nem na UE, nem na NATO. O alargamento da UE de forma indiscriminada e incluindo membros sem atributos que cumprissem as regras estabelecidas para a ela pertencerem, a violação de acordos foram o “trabalho” da Inglaterra neste processo, onde se distinguiu Blair. Terminado o “trabalho” de sabotagem a Inglaterra podia voltar à servidão dos EUA, e provocou o Brexit.
Nas causas longínquas da atual guerra na Ucrânia encontramos uma violação de acordos estabelecidos pelos EUA com a Rússia, que antecedem a recusa ou a violação dos recentes acordos de Minsk por parte do atual regime da Ucrânia suportado pelos EUA. A justa guerra do Ocidente começa com duas faltas de palavra!
Também não deixa de ser revelador da estratégia dos EUA de implosão da UE, de que a guerra na Ucrânia parece ser o ato final e o toque de finados, que os presidentes da Comissão Europeia, a partir da sua constituição tenham sido duas figuras tão medíocres e submissos quanto o italiano Romano Prodi (1999–2004) e Durão Barroso (2004–2014) o rececionista da Cimeira das Lages, a vergonha encenação para justificar a invasão do Iraque, pago por esse papel com o lugar em Bruxelas, arranjado por Blair. Estas duas tristes personalidades substituem políticos do gabarito de Jacques Dellors, por exemplo. Para a última fase da implosão da UE foi selecionada uma belicista para fazer coro com o secretário-geral da NATO.
A Europa vista pelos olhos dos políticos europeus do pós-Segunda Guerra, pelos olhos dos historiadores europeus, dos seus pensadores continentais é a Europa de Braudel, a Europa que inclui a Rússia e Sibéria, mas também o Mediterrâneo. O «Mediterrâneo», que numa obra clássica Braudel apresentou como uma personagem da História, tal como a Europa e que é visto por ele como personagem ou protagonista, ativo e até determinante da própria História. É um Mediterrâneo do comércio, dos intercâmbios económicos, de deslocamentos demográficos de sucessivas migrações dos povos. A União Europeia seria mais do que um simples apêndice dos EUA e para isso incluiria naturalmente a Rússia. Essa Europa deveria tornar-se uma entidade autossuficiente e, mais que isso, um centro de poder decisivo no mundo. Um concorrente que os EUA não podem admitir e que castraram antes de se desenvolver.
Essa Europa, como o império romano, morreu por traições internas e às mãos dos bárbaros que lhe introduziram o Cavalo de Troia.
É triste, mas é a realidade, verificar quanto a propósito dos tempos que vivemos os que podiam utilizar os instrumentos do saber adquirido ao longo da história, dos pensadores e historiadores substituíram o pensamento por provas e teses de doutoramento, a reflexão por uma ida à televisão, a independência intelectual por um convite a uma conferência. Estão no mercado, justificam-se uns, são moralistas, dizem outros e estão do lado do Bem, os invasores subtis do Oeste contra os invasores de Leste, os Maus.
Há europeus que tinham da Europa a visão de Braudel — perderam. Há europeus que preferiram a da Casa Branca, ganharam, a sua Europa será um dos vários exemplos de sucesso deixados pelos americanos aos seus vassalos depois de os utilizarem, do Vietname ao Afeganistão, passando pelo Iraque, pela Líbia, pelas repúblicas bananeiras da América do Sul…
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  • João Paz
    E tudo o Império americano levou ou quer levar. Não é só a Ucrânia a vítima desta guerra fabricada longamente pelos USA. A outra grande vítima são os países da Europa apesar de, por enquanto, ainda não haver (muitas) mortes por cá.
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  • Jose Monteiro
    Do que fui lendo e ouvindo, sempre atentamente, nascido 6 meses antes da declaração da II Guerra Mundial, o plano de chegar e arrasar a outra Europa, não é novo e inclui já o posicionamento hegemónico que levou a essa II Guerra! E era capaz de ser conseguido se a Rússia, despida da sua roupagem e do Tratado de Varsóvia, naturalmente, não tivesse sido de certo modo travado pelo ordenamento do que restava e que é muito e os EE UU terem vindo descalços do Afeganistão!
    Sem forças e um pouco pela calada da "noite" foram-se retirando de alguns dos campos que sabiam que iam ser demasiado penosos para serem mantidos, mesmo à custa do esforço militar pedido aos outros membros da NATO! Com a ajuda garantida dos seus amigos do UK, também eles perdidos há muitas décadas com o fim do seu Império, havia que chegar à outra Europa que foi sempre o seu objectivo! O cerco estava em curso e sempre a aumentar, como o muro para separar o México e havia que iniciar o arranque final, sempre com o UK à frente, provocando no mar negro, amontoando tropas junto das fronteiras da Ucrânia com a Rússia, sempre com a anuência do último e actual sapador!
    Se o Pentágono não parava de minar o caminho, também a Rússia não parava de avaliar o que vinha a caminho e em passos largos! E, assim, havia que travar o avanço, reconhecendo as duas regiões em litigio e 2 dias depois iniciar a Operação Especial para desnazificar e desmilitarizar o país escolhido para servir de ponte para a outra Europa e daí para a Ásia!
    O que depois foi acontecendo e todos os dias tem novos eventos, muitos deles serão desconhecidos face ao muro levantado à comunicação social que não fosse submissa às ordens pentagonais!
    A Europa deixou-se cilindrar, na euforia de entalar a outra europa através das sanções ditadas pelo grande império, de que pouco irá restar quando as contas forem acertadas, mas a EU irá ficar sem conserto e cada vez mais distante da outra Europa! A breve prazo todos nos aperceberemos o que vai restar da vassalagem!

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Alemanha e UE receberam declaração de guerra Quarta-feira, 28 de setembro de 2022 16h02 [ Última atualização: quarta-feira, 28 de setembro de 2022 16h06 ]

 

Alemanha e UE receberam declaração de guerra

A deputada dos EUA Ilhan Omar (D-MN) (E) conversa com a presidente da Câmara Nancy Pelosi (D-CA) durante um comício com outros democratas antes de votar no HR 1, ou Lei do Povo, na Escadaria Leste dos EUA Capitólio em 08 de março de 2019 em Washington, DC.  (foto AFP)


Por Pepe Escobar

A sabotagem dos oleodutos Nord Stream (NS) e Nord Stream 2 (NS2) no Mar Báltico impulsionou o “capitalismo de desastres” a um nível totalmente novo e tóxico.

Este episódio de Guerra Industrial/Comercial Híbrida, na forma de um ataque terrorista contra a infraestrutura energética em águas internacionais, sinaliza o colapso absoluto do direito internacional, afogado por uma ordem “do nosso jeito ou da estrada”, “baseada em regras”.

O ataque a ambos os oleodutos consistiu em múltiplas cargas explosivas detonadas em ramos separados perto da ilha dinamarquesa de Bornholm, mas em águas internacionais.  

Essa foi uma operação sofisticada, realizada às escondidas nas profundezas dos estreitos dinamarqueses. Isso excluiria, em princípio, os submarinos (os navios que entram no Báltico estão limitados a um calado de 15 metros). Quanto aos possíveis navios “invisíveis”, eles só poderiam vagar com permissão de Copenhague – já que as águas ao redor de Borholm estão repletas de sensores, refletindo o medo de incursão de submarinos russos.  

Sismólogos suecos registraram duas explosões submarinas na segunda-feira – uma delas estimada em 100 kg de TNT. No entanto, até 700 kg podem ter sido usados ​​para explodir três nós de tubulação separados. Tal quantidade não poderia ter sido entregue em apenas uma viagem por drones submarinos atualmente disponíveis em nações vizinhas. 

A pressão sobre os oleodutos caiu exponencialmente. Os tubos estão agora cheios de água do mar.

Os tubos em NS e NS2 podem ser reparados, é claro, mas dificilmente antes da chegada do General Winter. A questão é se a Gazprom – já focada em vários grandes clientes eurasianos – se incomodaria, especialmente considerando que os navios da Gazprom poderiam ser expostos a um possível ataque naval da OTAN no Báltico.

Autoridades alemãs já estão girando em torno de que NS e NS2 podem “potencialmente” ficar fora de serviço “para sempre”. A economia da UE e os cidadãos da UE precisavam urgentemente desse fornecimento de gás. No entanto, a EUrocracia em Bruxelas – que governa os estados-nação – não seguiria, porque eles foram ditados pelo Império do Caos, Mentiras e Pilhagem. Pode-se argumentar que esta euro-oligarquia deve um dia ser julgada por traição.

Tal como está, uma irreversibilidade estratégica já é evidente; a população de vários países da UE pagará um preço enorme e sofrerá graves consequências derivadas deste ataque, a curto, médio e longo prazo.  

Cui bono? 

A primeira-ministra sueca Magdalena Andersson admitiu que era “uma questão de sabotagem”. A primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen admitiu que “não foi um acidente”. Berlim concorda com os escandinavos.

Agora compare com o ex-ministro da Defesa polonês (2005-2007) Radek Sikorski, um russófobo casado com a raivosa “analista” americana Anne Applebaum, que alegremente twittou “Obrigado, EUA”.

Fica cada vez mais curioso quando sabemos que, simultaneamente à sabotagem , foi parcialmente aberto o Canal do Báltico da Noruega para a Polônia, um “novo corredor de abastecimento de gás” atendendo “os mercados dinamarquês e polonês”: na verdade um assunto menor, considerando meses atrás seus patrocinadores estavam com problemas para encontrar gasolina, e agora será ainda mais difícil, com custos muito mais altos.

O NS2 já havia sido atacado – a céu aberto – ao longo de sua construção. Em fevereiro, os navios poloneses tentaram ativamente impedir que o navio de assentamento de tubos Fortuna terminasse o NS2. Os canos estavam sendo colocados ao sul de – você adivinhou – Bornholm.

A OTAN, por sua vez, tem sido muito ativa no departamento de drones submarinos . Os americanos têm acesso a drones submarinos noruegueses de longa distância que podem ser modificados com outros projetos. Alternativamente, mergulhadores profissionais da marinha poderiam ter sido empregados na sabotagem – mesmo que as correntes de maré ao redor de Bornholm sejam um assunto sério.

The Big Picture revela o Ocidente coletivo em pânico absoluto, com as “elites” atlanticistas dispostas a recorrer a qualquer coisa – mentiras ultrajantes, assassinatos, terrorismo, sabotagem, guerra financeira total, apoio aos neonazistas – para impedir sua queda em um cenário geopolítico e abismo geoeconômico. 

A desativação do NS e do NS2 representa o fechamento definitivo de qualquer possibilidade de um acordo Alemanha-Rússia sobre o fornecimento de gás, com o benefício adicional de relegar a Alemanha ao status inferior de vassalo absoluto dos EUA.

Então, isso nos leva à questão-chave de qual aparato de inteligência ocidental projetou a sabotagem. Os principais candidatos são, claro, a CIA e o MI6 – com a Polônia configurada como o cara da queda e a Dinamarca desempenhando um papel muito desonesto: é impossível que Copenhague não tenha pelo menos “informado” sobre as informações.

Prescientes como sempre, já em abril de 2021, os russos estavam fazendo perguntas sobre a segurança militar do Nord Stream.

O vetor crucial é que podemos estar diante do caso de um membro da UE/OTAN envolvido em um ato de sabotagem contra a economia número um da UE/OTAN. Isso é um casus belli. Fora a terrível mediocridade e covardia da atual administração em Berlim, é claro que o BND – inteligência alemã – bem como a marinha alemã e industriais informados, mais cedo ou mais tarde, farão as contas.  

Este estava longe de ser um ataque isolado. Em 22 de setembro, houve um atentado contra o Turkish Stream por sabotadores de Kiev. No dia anterior, drones navais com identidades em inglês foram encontrados na Crimeia, suspeitos de fazer parte da trama. Adicione a isso helicópteros dos EUA sobrevoando os futuros nós de sabotagem semanas atrás; um navio de “pesquisa” do Reino Unido  vagando em águas dinamarquesas desde meados de setembro; e a OTAN twittando sobre o teste de "novos sistemas não tripulados no mar" no mesmo dia da sabotagem.

Mostre-me o dinheiro (gás)

O ministro da Defesa dinamarquês reuniu-se de urgência com o secretário-geral da OTAN nesta quarta-feira. Afinal, as explosões aconteceram muito perto da zona econômica exclusiva da Dinamarca (ZEE). Isso pode ser qualificado como kabuki bruto na melhor das hipóteses; Exatamente no mesmo dia, a Comissão Européia (CE), o escritório político de fato da OTAN, avançou com sua obsessão de marca registrada: mais sanções contra a Rússia, incluindo o teto certificado para falhar nos preços do petróleo.

Enquanto isso, os gigantes da energia da UE devem perder muito tempo com a sabotagem.

A chamada inclui as alemãs Wintershall Dea AG e PEG/E.ON; o holandês NV Nederlandse Gasunie; e a francesa ENGIE. Depois, há aqueles que financiaram NS2: Wintershall Dea novamente, bem como Uniper; OMV austríaco; ENGIE novamente; e anglo-holandesa Shell. A Wintershall Dea e a ENGIE são co-proprietárias e credores. Seus acionistas furiosos vão querer respostas sérias de uma investigação séria.

Fica pior: não há mais restrições na frente do Pipeline Terror. A Rússia estará em alerta vermelho não apenas para Turk Stream, mas também para o Poder da Sibéria. O mesmo para os chineses e seu labirinto de oleodutos que chegam a Xinjiang.

Qualquer que seja a metodologia e os atores que estavam no circuito, esta é a vingança – adiantada – pela inevitável derrota coletiva do Ocidente na Ucrânia. E um aviso grosseiro ao Sul Global de que eles farão isso de novo. No entanto, a ação sempre gera reação: a partir de agora, “coisas engraçadas” também podem acontecer com oleodutos EUA/Reino Unido em águas internacionais.

A oligarquia da UE está atingindo um processo avançado de desintegração na velocidade da luz. Sua janela de oportunidade para pelo menos tentar um papel como ator geopolítico estrategicamente autônomo está agora fechada.

Estes EUROcratas enfrentam agora uma situação grave. Uma vez que esteja claro quem são os autores da sabotagem no Báltico, e uma vez que eles entendam todas as consequências socioeconômicas que mudam a vida dos cidadãos pan-europeus, o kabuki terá que parar. Incluindo a subtrama já em andamento, ultra-ridícula, de que a Rússia explodiu seu próprio oleoduto quando a Gazprom poderia simplesmente ter desligado as válvulas para sempre. 

E mais uma vez, fica pior: a Gazprom está ameaçando processar a empresa de energia ucraniana Naftofgaz por contas não pagas. Isso levaria ao fim do trânsito de gás russo da Ucrânia em direção à UE.  

Como se tudo isso não fosse sério o suficiente, a Alemanha é contratualmente obrigada a comprar pelo menos 40 bilhões de metros cúbicos de gás russo por ano até 2030.

Apenas diga não? Eles não podem: a Gazprom tem o direito legal de ser paga mesmo sem enviar gás. Esse é o espírito de um contrato de longo prazo. E já está acontecendo: por causa das sanções, Berlim não recebe todo o gás de que precisa, mas ainda precisa pagar.

Todos os demônios estão aqui

Agora está dolorosamente claro que as luvas imperiais de veludo estão fora quando se trata dos vassalos. Independência da UE: verboten. Cooperação com a China: verboten. Conectividade comercial independente com a Ásia: verboten. O único lugar para a UE é ser economicamente subjugada aos EUA: um remix de mau gosto de 1945-1955. Com um perverso toque neoliberal: seremos donos de sua capacidade industrial e você não terá nada.

A sabotagem do NS e do NS2 está embutida no sonho molhado imperial de quebrar a massa terrestre eurasiana em mil pedaços para evitar uma consolidação trans-Eurásia entre Alemanha (representando a UE), Rússia e China: $ 50 trilhões em PIB, com base em paridade do poder de compra (PPP) em comparação com os US$ 20 trilhões dos EUA. 

Devemos voltar a Mackinder: o controle da massa terrestre eurasiana constitui o controle do mundo. As elites americanas e seus Cavalos de Tróia em toda a Europa farão o que for preciso para não desistir de seu controle.

As “elites americanas” neste contexto abrangem a “comunidade de inteligência” enlouquecida e infestada por neoconservadores straussianos e a Big Energy, Big Pharma e Big Finance que os paga e que lucra não apenas com a abordagem Forever War do Deep State, mas também quer fazer uma matança com o Great Reset inventado por Davos.

Os Raging Twenties começaram com um assassinato – do Gen Soleimani. Explodir pipelines faz parte da sequência. Haverá uma estrada para o inferno até 2030. No entanto, para emprestar de Shakespeare, o inferno está definitivamente vazio, e todos os demônios (atlanticistas) estão aqui.
 

Pepe Escobar é um analista geopolítico independente e autor. Seu último livro é Raging Twenties. Ele foi politicamente cancelado do Facebook e Twitter. Siga-o no Telegram .

(As opiniões expressas neste artigo são do próprio autor e não refletem necessariamente as da Press TV.)


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